﷯ folhacds 2 ANOS // 7 MARÇO 2017

CONVERSAS DO CALDAS

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA

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Inês Dória Nóbrega Teotónio Pereira Bourbon Ribeiro nasceu a 14 de dezembro de 1971. Casada e com 6 filhos. Frequentou os cursos de Direito e Ciência Política. Trabalhou como jornalista no semanário O independente, na Revista Evasões, no Euronotícias, na Atlântico, na Xis e no jornal I. Entre 2003 e 2005 foi adjunta do Ministro de Estado e da Defesa Nacional no XV Governo Constitucional. Foi chefe de gabinete do presidente do CDS, Paulo Portas, em 2010. Foi deputada do CDS na XII Legislatura (2011-2015). Colunista do Diário de Notícias.

No seu seio familiar o debate político esteve muito presente e a política sempre foi muito vivida. Cedo começou a participar, com 16 anos, na atividade da Juventude Centrista (JC) em Sintra e depois em Cascais. Ingressou no curso de Direito, pois achava que era precisamente aquele que mais próximo estava da área política, nunca se considerando, apesar de tudo, uma política. Contudo, um estágio de verão no semanário O Independente, no início dos anos 90, vem alterar o rumo do seu percurso académico, que é interrompido, e vai encaminhar o seu percurso profissional. Após trabalhar, tendo sido convidada para ficar após o dito estágio, neste semanário fundado e dirigido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, vai percorrer outras tantas publicações, entre jornais e revistas. Foi jornalista fundadora da Revista Evasões e do Euronotícias, tendo, no entanto regressado ao Independente durante a direção de Inês Serra Lopes. No Independente, ao longo dos 6 a 7 anos que lá trabalhou passou pelas várias secções, curiosamente trabalhava pouco a área política, dedicando-se mais à educação, comunicação social e aos temas de sociedade, embora “todos tivessem de fazer um pouco de tudo”, frisou.

 

Perante a questão da clarificação do alinhamento político da comunicação social considera que já vai havendo algum, devendo haver isenção, embora considere que “nenhum diretor de jornal consegue ser totalmente isento na medida em que isso significa ausência de opinião, tem de respeitar a verdade mas não se é totalmente independente”. Mais do que haver uma identificação clara de projetos de comunicação social de esquerda ou de direita, para a nossa convidada é mais preocupante a dependência de grupos de interesse ou um alinhamento com estes.

 

Fala do exemplo do jornal online Observador que nos artigos de informação, nas notícias, consegue cingir-se à realidade dos factos mas optou por assumidamente entregar o espaço de opinião a colunistas e convidados mais próximos de uma direita política. “Nem a Lusa consegue não ter uma tendência, a dada altura há sempre uma tendência ideológica ou de interesse de quem dirige ou de quem faz a notícia, é impossível não os terem”.

Reporta-se à experiência governativa do CDS por altura da coligação com o PSD de Durão Barroso como tendo sido “muito entusiasmante e empolgante”. Começa por mencionar que desmistificou algumas questões. A importância da comunicação social junto do poder político, o peso da máquina da administração pública e do Estado, que de forma autónoma das direções políticas quase que percorre um caminho próprio, quase que “tem vida própria”. Para encarar este tipo de situações é preciso “muita resiliência, força de vontade, muita determinação”, enfrentar a posição de quem não quer ter “a responsabilidade da liberdade”, afirma Inês Teotónio Pereira.

 

Falámos ainda do seu empenho cívico, adjetivado pela própria de “intenso”, por ocasião dos referendos ao aborto, ou à despenalização da interrupção voluntária da gravidez se quiserem. No segundo referendo, em 2007, coordenou a área da comunicação dos movimentos em defesa do “Não”. Recorda a distância necessária dos partidos e da Igreja e a dureza do desafio pela exigência e insistência constantes em se quebrarem barreiras e preconceitos, “fugir de rótulos”, para que alguma coisa da mensagem propriamente dita pudesse ser corretamente transmitida e chegasse sem deturpações às pessoas. “Aprendi imenso”, reconhece, fazendo-o também em relação ao combate pesado que foi travado na altura.

 

Relata-nos que lhe faz muita impressão a falta de franqueza e de transparência, e tantas vezes se viu (e ainda se vê) confrontada com situações dessa natureza (que a deixam bastante irritada) que alega ter ficado mais “cínica”, no sentido de ter exponenciado os seus níveis de desconfiança.

 

Após a sua saída do gabinete ministerial, em 2005, tão cedo não voltou a aceitar um desafio dessa natureza, apesar do balanço positivo que faz. Preferiu algo que mais facilmente pudesse conciliar com a maternidade e com seis filhos, muito pequenos então. A solução que encontrou foi uma colaboração com vários jornais, sem ter um horário a tempo inteiro, criou o blogue “A um metro do chão”, iniciando as crónicas no Jornal I, agora no Diário de Notícias, vocacionadas para a educação e a família.

Mais tarde, o então presidente do CDS, Paulo Portas, desafia-a a integrar as listas do partido nas eleições legislativas de 2011. Inês Teotónio acaba por aceitar e é eleita diretamente, sendo a última deputada a “entrar” na Assembleia da República nesse ato eleitoral, relembra a própria.

 

Desse período de trabalho parlamentar destaca a participação na Comissão de Educação, Ciência e Cultura, nomeadamente o ter representado o CDS no Grupo de Trabalho da Educação Especial. Contudo, revê-se mais em funções com um pendor executivo e confidencia-nos, com base na sua experiência, que o Parlamento acaba por ter pouca importância, ou melhor, é relevante, mas face ao peso do Governo e das lideranças partidárias acaba por não ter o papel que deveria assumir e o trabalho do deputado, muitas vezes, revela-se inconsequente. Um deputado para fazer a diferença “tem de pedalar muito”.

 

Em relação à situação política atual assume que existe uma predisposição maior para se ouvir a esquerda e a direita tem de fazer um “esforço enorme para se fazer ouvir”, não se verificando tanta tolerância face à não esquerda. Há uma cultura que favorece a esquerda, “a contestação é mais apelativa”, diz-nos Inês, pelo que a esquerda consegue congregar mais simpatias. Esta sempre teve uma grande máquina de comunicação, que é como quem diz propaganda, mas que por si só não bastaria se não houvesse a tal predisposição para ser ouvida, não se esgotando, contudo, aí.

Tentam fazer passar mensagens como a viragem da página da austeridade, o alívio da carga fiscal, maior disponibilidade de rendimentos para as famílias, quando a situação do país não é melhor, concorda a nossa convidada. Elenca alguns exemplos ilustrativos disso mesmo como o aumento da dívida pública, as reversões e cativações que têm levado à degradação de diversos serviços públicos, designadamente na educação.

 

Sublinha o orgulho que tem pelo trabalho desenvolvido nessa área pelo anterior Governo e na anterior legislatura. A descentralização do ensino, mais autonomia para as escolas, quer públicas quer privadas, a aposta nas disciplinas nucleares, com resultados positivos, inclusive com reconhecimento internacional. Foram componentes essenciais “de uma estratégia que servia os alunos e as famílias e não tanto os professores”. Falámos do peso das corporações e grupos de pressão na educação e das restrições impostas pela troika, nomeadamente a contenção orçamental por ocasião do resgate financeiro, e que apesar dessas pressões e limitações foi possível construir-se algo.

 

“O atual Governo está a destruir tudo, não só o que o anterior fez, não só o que o ministro Nuno Crato fez, que vinha, aliás, no seguimento dos que anteriores governos fizeram, incluindo os do PS. A autonomia, a importância da disciplina, a avaliação do sistema, a orientação para os resultados eram palavras de ordem e fizeram um rutura com o percurso que a educação estava a tomar de há quinze anos para cá”.

A nossa convidada fala em cedências a determinadas forças políticas e não quer acreditar que o verdadeiro PS é aquele que dirige o Ministério da Educação. “Desfazem e criticam o que se fez mas não apontam uma verdadeira alternativa”. Diz de forma desassombrada, que de resto muito caracteriza a forma de estar de Inês Teotónio Pereira, que na sua passagem pelo Parlamento finalmente percebeu bem o conceito de uma pessoa ser “intelectualmente desonesta”, completando que a geringonça “está dominada por pessoas assim”.

 

Ainda a comentar a situação política atual menciona que o país não irá aguentar, nem financeira nem socialmente, e que algo terá de ser feito para se quebrar este ciclo que poderá significar, com a repetição de receitas erradas do passado a um ritmo acelerado, um novo momento dramático para Portugal. Para inverter esta situação vê vantagem numa supremacia do pragmatismo sobre a ideologia, ainda que a oposição tenha uma missão “muito ingrata”. Enaltece e tece um largo elogio à “política positiva” desta direção do CDS liderada por Assunção Cristas, no meio de um ambiente político que continua “violento”. Sublinha ainda a coragem política da presidente do partido ao assumir o desafio de se candidatar à presidência da Câmara de Lisboa, bem como lamenta a postura que o PSD tem tido nesse processo autárquico. Reforça ainda que o CDS em Lisboa tem trabalho feito, tem sido a melhor oposição, o que por si só é uma grande mais-valia para a candidatura de Cristas.

Inês Teotónio Pereira, utilizadora recorrente do sentido de humor, concorda que “as pessoas levam-se muito a sério, mais ainda na política”. “Já não é humor é sarcasmo, é uma atitude destrutiva”, diz para caracterizar de forma breve o panorama que parece dominar. “O humor serve muito para tirar a carga pesadas das coisas, para relativizar, facilitando os consensos, os acordos, muito mais eficácia na resolução dos problemas e no encontro das soluções”. Quando se “acha tudo muito dramático e muito sério”, tudo fica mais difícil, exclama Inês. Estabelece um paralelo com a educação das crianças, com quem aprende bastante, se assim fosse acabaria por “não dormir”, tal era o volume de problemas e hipóteses que surgiriam se não se relativizar ou até “ridicularizarmos o nossos próprios medos e ansiedades”. Na política tem constatado que o que surge “não é tanto humor, é achincalhamento, sarcasmo”, o que muito lamenta.

 

Por falar em crianças terminamos a conversa com uma referência particular aos seus seis filhos: “o Salvador, o Manel, o Duarte, a Teresa, o Francisco e o João”, com idades compreendidas entre os 16 e os 3 anos, “quase a fazer 4” adianta Inês. Revela estar ótima neste papel, conciliando a escrita com a colaboração enquanto “editora” free-lancer da editora Leya. Em termos partidários continua a trabalhar com o Gabinete de Estudos, em concreto na área da educação e do ensino especial.