﷯ folhacds 18 ABRIL 2017

CONVERSAS DO CALDAS

ANA CLARA BIRRENTO

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Ana Clara de Sousa Birrento Matos Silva nasceu a 31 de dezembro de 1961, em Benavente. Casada e mãe de um filho. Reside em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa, é doutorada em Literatura Inglesa pela Universidade de Évora, onde exerce, desde 1986, atividade docente no Departamento de Linguística e Literaturas, sendo, igualmente, investigadora do Centro de Estudos em Letras da mesma Universidade. Para além da autoria de vários livros e artigos científicos desempenhou nessa instituição de ensino superior várias funções de gestão, entre as quais presidente do Conselho de Departamento. Entre dezembro de 2011 e julho de 2015 foi diretora do Centro Distrital de Setúbal da Segurança Social e entre esta data e maio de 2016 presidente do Conselho Diretivo do Instituto da Segurança Social. Candidata pelo CDS às eleições europeias de 25 de maio de 2014. Candidata do CDS à Câmara Municipal de Setúbal nas eleições autárquicas de 1 de outubro de 2017.

Começámos desde logo por recordar a adesão de Ana Clara Birrento à Juventude Centrista (JC). Refere um pormenor interessante e sobretudo revelador, um fio em prata com uma medalha com o símbolo da JC, oferta dos seus pais. Usava-o com orgulho no Liceu Nacional de Setúbal, onde estudou, com 13, 14 anos, frisando que nunca teve qualquer espécie de problema por esse facto e pelas suas preferências políticas, apesar de ser um território nada fácil à área ideológica do CDS.

 

Recordou ainda o núcleo de Azeitão da JC e do CDS, composto por um grupo de pessoas muito unido e interventivo, todas as operações e os materiais associados às campanhas políticas de então, revelando-se desde cedo muito participativa e politicamente ativa. Enalteceu o papel deste núcleo no peso que o CDS foi tendo no concelho de Setúbal, nomeadamente a voz de um deputado municipal. “Difícil mas desafiante” sempre foram palavras de ordem no trabalho político do CDS, nomeadamente em Setúbal. Apesar de há muito tempo aí habitar, nasceu no Ribatejo, em Benavente. Fala-nos de “uma identidade tripartida”. Fazem parte de si gostos tipicamente ribatejanos, os touros, os cavalos, a tourada à portuguesa, a arte de tourear. Foi para Azeitão com dois anos de idade, é no concelho de Setúbal que sempre tem vivido (há 53 anos), aí estudou no ensino secundário, após casar manteve-se na terra da foz do Sado. Desde 1986, tendo feito em fevereiro passado 31 anos, que desenvolve atividade profissional, desde a docência, passando pela investigação, até à gestão na Universidade de Évora, sendo esta a componente alentejana da sua “identidade tripartida”.

 

Na definição do seu perfil político o primeiro impulso foi o “contexto familiar”. Foi sendo educada e convivendo com valores que são inerentes à génese da JC e do CDS, como a família, o humanismo, o trabalho, a cidadania. Depois, naturalmente, foi estreitando laços dentro do próprio partido e aprofundando as suas ideias e referências. Quando, por limite de idade, deixa de ser militante da JC e adere ao CDS, fê-lo em Évora, tendo sido candidata nas eleições legislativas por esse círculo eleitoral em 1987. Apesar das ligações profissionais estarem em Évora, e pela circunstância de continuar a residir em Setúbal, acaba por mudar para aí a sua filiação partidária.

Em Lisboa concluiu a sua licenciatura e o seu mestrado, e em Évora o seu doutoramento em literatura inglesa. Foi seu orientador o Prof. Doutor Álvaro Pina, da Universidade de Lisboa, que havia sido seu professor na licenciatura, e na sua condição de ex-marxista, chegando a reconhecer numa aula que com a evolução dos tempos já não fazia sentido continuar a sê-lo, deu-lhe “uma liberdade de espírito” para que fizesse o percurso académico olhando sempre para a diversidade de perspetivas e abordagens sobre os temas. Ana Clara assume esta postura, não só ao nível político e profissional, mas como sendo algo muito seu a nível pessoal. O trabalho de investigação de doutoramento foi defendido na já icónica e célebre Sala dos Actos do Colégio do Espírito da Universidade de Évora e versou sobre o contexto cultural de uma autora de romances, inglesa, de meados do séc. XIX, importante, algo esquecida na centúria seguinte, por ter desenvolvido as personagens femininas. Alega não gostar “de caixas e rótulos”, não se enquadrando numa postura ou discurso feminista, mas reafirma a relevância da autora, Margaret Oliphant, quando na época era hegemónica uma atitude castradora do papel das mulheres. Não sendo uma abordagem literária pura, estabelece na sua tese uma abordagem crítica da relação entre a literatura e a cultura e o seu contexto histórico. Sublinha que não há “uma via única para as coisas”, reforçando que é algo que aplica no trabalho académico e na vida em geral. Não se querendo alongar em aspetos mais técnicos faz questão de mencionar um projeto de investigação que está a desenvolver com mais duas colegas de Évora, “Paisagens do Ser”, que versa sobre a análise do discurso político e a representação que os políticos fazem de si próprios através da análise das suas autobiografias.

 

Ainda na universidade, mas na área da gestão, foi eleita para dois mandatos como presidente do Conselho de Departamento, o que implicou outras funções por inerência. Daqui resultou uma aquisição adicional de competências que reconhece úteis para as diversas vertentes da sua vida, ficando bem claro o desenho de percursos paralelos entre o trilho académico e o desempenho de funções políticas, nunca se substituindo ou sobrepondo mutuamente. Sublinha ainda que nenhuma destas se sobrepõe à família.

Preza muito a vida familiar, o seu marido e o seu filho, bem como os seus pais, que na sua condição de filha única e na tentativa de retribuir o que sempre fizeram por ela, “agora que já têm uma certa idade precisam mais eles”.

 

Um conceito chave em Ana Clara Birrento é a organização. Diz que muita gente refere que uma expressão que a ouvem dizer recorrentemente é “Eu tenho de me organizar”.

Falámos de desafios políticos. Antes de assumir a direção do Centro Distrital da Segurança Social de Setúbal, em 2011, reconhece que o seu nome não era propriamente muito conhecido. Apesar disso, já por diversas vezes assumiu a função de vice-presidente da Concelhia de Setúbal do CDS e chegou a ser candidata em eleições autárquicas à agora designada Junta de Freguesia de Azeitão, resultante da união das freguesias de São Lourenço e São Simão.

 

Dirige uma palavra de gratidão a quem lhe formulou o convite para assumir o desafio mencionado em 2011, bem como a todos os colaboradores com quem trabalhou na Segurança Social em Setúbal e depois mais tarde, entre 2015 e 2016, a nível nacional na presidência do Conselho Diretivo do Instituto.

 

Evoca ainda o grande desafio que constituiu integrar as listas candidatas ao Parlamento Europeu em maio de 2014, sendo o segundo nome do CDS a seguir ao atual eurodeputado Nuno Melo. Recorda o contexto duro em que ocorreram, em pleno período de resgate financeiro internacional, tendo sido o CDS chamado a governar em coligação com o PSD, após as eleições legislativas de 2011 e após o pedido de resgate a credores internacionais por parte do governo socialista de José Sócrates.

 

Ao longo da sua vida política as preocupações sociais sempre foram uma tónica dominante.

Regressa ao Centro Distrital de Setúbal para o apontar como grande escola que foi para si no que diz respeito às questões sociais e à sua gestão, bem como na condução dos destinos da Segurança Social a nível nacional. Aponta diversas virtualidades ao antigo ministro da tutela, Pedro Mota Soares, mas destaca dentro do seu “trabalho relevante e competente” a capacidade que teve de perceber que o Estado sozinho não chega a todo o lado e que deve trabalhar em parceria e em rede. Muitas vezes são as instituições que trabalham no terreno que melhor, com mais propriedade e detalhe conhecem os problemas das pessoas e das famílias.

 

Destacou a importância dada ao programa “Rede Social”, que valoriza particularmente, precisamente por ter sido agregador de diversos parceiros, desde as IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), às autarquias, forças de seguranças e serviços de saúde, que melhor conseguem cobrir em profundidade o terreno e assim melhor servir as populações. O Estado “constitui-se como parceiro de quem estava no terreno”, menciona em jeito de resumo do trabalho desenvolvido então pelo Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social.

 

Comentou a solução, ou “alegada solução”, de governo que tem sido a Geringonça. Relembra que a coligação Portugal à Frente ganhou as eleições legislativas em 2015. Viu a formação da geringonça, expressão que classifica como “imagem perfeita do que é este governo”, como calculismo e oportunismo político, quer do PS de António Costa, que dependia (e ainda dependerá) disso para a sua sobrevivência política, quer dos partidos mais à esquerda que vislumbraram uma oportunidade de “estar no poder”, frisando Ana Clara Birrento que mais do que governar, o objetivo parece ser “estar no poder.”

“Estas esquerdas unidas têm na sua retórica e no seu discurso teórico uma preocupação com as pessoas”, mas chumbaram as propostas do CDS relativas à natalidade, a família, o envelhecimento ativo, sem acrescentarem nenhum contributo positivo nem darem seguimento a esse debate de soluções. Felizmente a situação foi já um pouco diferente no que diz respeito às propostas na área da deficiência.

 

Elogia o trabalho desenvolvido pelo Grupo Parlamentar no seu todo, com especial destaque para o líder parlamentar, Nuno Magalhães, e a presidente do CDS, Assunção Cristas, como oposição construtiva e participação pela positiva, com propostas válidas vocacionadas para as necessidades reais das pessoas.

 

Apresentou recentemente a sua candidatura à Câmara Municipal de Setúbal, tendo sido o CDS a primeira força política a fazer o anúncio público no concelho. A juntar ao slogan “Solução clara para Setúbal” revela que escolheu como assinatura de campanha, por enquadrar-se em várias características do seu perfil, o título “sensibilidade e bom senso” do original da escritora do séc. XIX, Jane Austin. “Sou assim e encaro assim a forma de fazer política e de gerir a câmara”, refere. “Sensibilidade para as questões sociais, a paixão com que abraço um desafio, nomeadamente este, o profissionalismo que coloco nas coisas”, completa assim esta ideia e a explicação da sua escolha. “Quando me responsabilizo por um projeto é para o levar até ao fim”, diz ainda Ana Clara, acrescentando que o “bom senso” é o que tem faltado na gestão camarária em Setúbal, designadamente no capítulo orçamental.

 

Reconhece que têm sido feitas algumas obras interessantes no município, considerando que a cidade até está mais “luminosa”, mas há muito por fazer.

Perante isto elenca os três pilares que sustentarão a sua candidatura: “Setúbal sustentável, competitiva e inclusiva”.

 

Faz alusão ao facto de “a cidade tem estado de costas voltadas para o rio e para a serra” e a câmara deve ser uma força que se bata por mais investimento, por exemplo através de uma redução fiscal, que a sustentabilidade seja ambiental mas também económica. Propostas realistas, financeiramente sustentáveis, economicamente viáveis e produtivas, que de forma direta ou menos direta “tornem a cidade, não só na sua malha urbana, mas nas freguesias mais rurais, mais inclusiva”.

 

Dá-nos conhecimento da boa aceitação que a candidatura tem tido, “não só por parte de pessoas do CDS, mas de vários quadrantes e que se manifestam com opiniões muito positivas”, bem como de reuniões que tem programadas com “empresas, forças de segurança, com o senhor bispo”. Pretende ouvir, assim, as forças vivas do concelho, entidades e pessoas que compõem o seu tecido económico e social, para a estruturação de uma proposta de programa “com os pés bem assentes na terra, pois é assim que eu gosto de trabalhar”, afirma a nossa convidada com clareza.

 

Com um percurso académico e profissional muito ligado à literatura e à cultura, é leitora por obrigação e também por lazer. Por ofício está atenta ao que se produz no drama, no teatro, na poesia, sobretudo em língua inglesa, mas também portuguesa, e por lazer as suas escolhas recaem sobretudo no romance. Destaca autores como, nos ingleses contemporâneos, Martin Amis e Jeanette Winterson, nos portugueses coloca António Lobo Antunes como o favorito, embora faça ainda uma referência particular a Teolinda Gersão, que este ano recebeu o prémio Vergílio Ferreira da Universidade de Évora, que anualmente reconhece o trabalho de um escritor ou ensaísta.