﷯ folhacds 16 MAIO 2017

OPINIÃO

 

A Geração Milénio na Política Autárquica

- FRANCISCO CAMACHO -

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No próximo dia 1 de Outubro, com as eleições autárquicas, decorrerá mais um teste decisivo à participação cívica e política dos jovens na vida pública. Perante isto, há certas reflexões que se impõem: Numa fase em que somos invadidos por estímulos e interações constantes, como é que as autarquias podem chegar à Geração Milénio e o que pode esta fazer por aquelas?

 

É certo que os dados da abstenção, nos últimos actos eleitorais, não são os mais animadores: em 2013, apenas 52,60% dos eleitores inscritos se deslocaram às urnas aquando das eleições autárquicas; no concelho de Lisboa, somente 45,06% o fizeram. No entanto, os cidadãos nascidos entre os anos 80 e meados da década de 90 podem ter um peso preponderante nas próximas eleições, e não só a nível quantitativo.

 

Primeiramente, as autarquias são o meio político, por princípio e excelência, mais próximo das populações. No entanto, verificamos um distanciamento claro entre os municípios e freguesias perante aqueles que, segundo dados actualizados em 2017 pelo INE, representam aproximadamente 2.321.826 cidadãos portugueses (22% do total da população portuguesa) . Ora, esta lógica de distanciamento generalizado tem que ser combatida pelos autarcas, desde logo, pela simples circunstância de terem a responsabilidade de dar respostas em áreas caras à Geração Milénio, como sejam o acesso à cultura, a prática desportiva e utilização de parques verdes, a escola para os seus filhos, o pagamento de um sem número de taxas, a primeira habitação, a higiene e limpeza das ruas, a mobilidade e os transportes públicos, a convivência perante o turismo e a segurança na sua área de residência.

Se é sensato afirmar que as autarquias não são o meio de resolução de todo e qualquer problema, não menos correcto é reconhecer que, hoje, pós reforma-administrativa, as Câmaras e Juntas de Freguesia têm, à partida, recursos e meios suficientes para apresentar soluções, dentro das suas competências, àqueles que vivem ou desejem viver em certos concelhos. Associado a este factor, há uma crescente e correcta onda de descentralização, onde as instituições presentes no quotidiano das pessoas ganham relevância. Por isto, é bem clara a razão pela qual as autarquias devem ter uma palavra para as gerações que presentemente terminam os seus estudos, iniciaram e progridem na sua carreira profissional, ou constituem e estabelecem família: são as autarquias que devem definir e executar políticas de promoção do Concelho.

 

Para além destas legítimas exigências que os jovens esperam ver abordadas no âmbito autárquico, é importante reflectirmos sobre por que razão, onde e de que modo devem os jovens contribuir para a vida autárquica.

 

As eleições autárquicas são, sem dúvida, uma oportunidade para a participação cívica. Os pretensos fantasmas em torno das autarquias, em consequência dos episódios jurássicos de certos dirigentes e de certos perpetuadores do exercício político, só podem ser desmantelados se reclamarmos continuamente por melhores representantes. As autarquias são, portanto, o primeiro passo para a apresentação dos nossos préstimos, enquanto jovens, através de uma renovação autêntica e livre de qualquer dependência pelo poder. O status quo só se altera verdadeiramente com a força da alternativa, temos essa possibilidade!

"As autarquias são, portanto, o primeiro passo para a apresentação dos nossos préstimos, enquanto jovens, através de uma renovação autêntica e livre de qualquer dependência pelo poder."

As freguesias, até numa cidade agitada como Lisboa, são inquestionavelmente pontes de contacto: é nelas que estamos inseridos, enquanto residentes, estudantes e/ou trabalhadores. Por isso, deve também ser por via das juntas de freguesia que os jovens apresentam as suas ideias, pensamentos e soluções. Trata-se de uma questão de envolvimento e serviço pela comunidade.

 

O modo de participar, esse, pode ser múltiplo. Por um lado, de uma forma directa e individual, pela presença nos momentos da freguesia e do concelho, tanto a título formal nas assembleias de freguesia ou municipais (abertas obrigatoriamente ao público), como a título informal, pelas actividades e serviços que nos são apresentados.  Por outro lado, interagindo e integrando associações promotoras de causas municipais (paróquias, associações de moradores e outras colectividades).

 

É precisamente neste enquadramento que surge a Juventude Popular de Lisboa. Enquanto estrutura autónoma, mas articulada com o CDS Lisboa, temos apresentado uma estratégia autárquica clara. Para além de um diagnóstico sério de Lisboa, da necessária racionalidade na promoção de um Lisboa smartcity e amiga dos lisboetas, apresentámos quase 50 propostas à candidata à Câmara de Lisboa, Assunção Cristas. A JP Lisboa é uma organização de portas abertas para todos os jovens “milénios” que queiram uma Lisboa com soluções. Somos um meio transparente e disponível para a participação autárquica, não pelo estigma de sermos “jotinhas”, mas por termos, isso sim, quadros qualificados, empreendedores e entregues ao serviço pela cidade e pelos lisboetas. Estaremos na frente, não por regra ou norma do CDS, mas por competência e visão de uma candidatura inter-geracional e promotora do mérito na cidade.

Lisboa tem sido espelho de uma visão negativa no contacto com os jovens e a anos-luz do que seria desejável numa cidade cosmopolita. Embora seja uma das cidades mais apetecíveis para se viver, a realidade é que tem perdido jovens a pique, o que tem contribuído para ser uma das capitais europeias mais envelhecidas. Em contraponto, tem surgido a dinâmica da Juventude Popular, identificando problemas, apresentando soluções e mobilizando jovens que, defendendo uma cidade respeitadora dos avós, almejam genuinamente uma Lisboa com mais pais e filhos.

 

A Geração Milénio não é o quadro de uma geração futura, é a certeza de uma geração presente. Compete aos quadros políticos encararem-na como tal, dando-lhe a oportunidade, perante a certeza das suas qualidades, não só nas candidaturas formais às Câmaras, Assembleias Municipais e Freguesias, mas também na elaboração do programa eleitoral. Em Lisboa, a JP tem tido essa porta. Que o corredor se mantenha para todos os jovens, militantes ou não, num desafio que, mais do que uma causa partidária ou geracional, é de todos pela regeneração das autarquias.

 

Se os concelhos continuarem a negligenciar o presente, fica uma certeza: não terão qualquer futuro. Chegou a hora dos Milénio!

 

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Segundo dados de 2015, actualizados em 2017, pelo Instituto Nacional de Estatística,  tendo por base a faixa etária dos cidadãos portugueses nascidos entre 1981 e 2000.