﷯ folhacds 16 Maio 2017

OPINIÃO

 

As cidades e o turismo

- MANUEL ARANHA -

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Vivemos tempos em que a sociedade, baseada nas conversas de café e nos soundbytes da comunicação social, estrutura o seu pensamento na base do conflito. Desde o conflito intergeracional, passando pelo conflito entre funcionários públicos e os que trabalham no privado, até ao conflito entre as escolas públicas e privadas, passamos o tempo a discutir e a pensar de que lado estamos nessa disputa, a maior parte das vezes sem termos consciência de que o melhor não é colocar os cenários frente-a-frente, mas antes lado a lado, que ambos são importantes e se podem complementar, desde que não haja visões fundamentalistas e demagogas.

 

Mais recentemente, temos vindo também a observar uma análise semelhante relativamente ao turismo e ao impacto que o mesmo tem vindo a ter nas nossas cidades. Aliás, com o aproximar das eleições autárquicas, vamos lendo com maior frequência notícias e posições de candidatos dos mais variados espectros políticos sobre como o turismo tem sido responsável pela descaracterização das cidades, pelo abandono das populações dos centros urbanos, numa nova lógica de conflito (ainda que indesejada, estou certo) de residente contra turista. Não são raras as vezes em que ouvimos falar de turistas a mais, que enchem as nossas ruas, que fazem muito barulho, que estragam o que é nosso.

 

Esta é uma lógica perigosa, no sentido em que provoca reações mais populistas e menos ponderadas, principalmente ao nível político, além de que neste caso em concreto pode induzir comportamentos repulsivos em relação àqueles que nos visitam, o que teria efeitos devastadores na nossa reputação e, consequentemente, num sector tão relevante para a cidade e para o país.

Neste, como noutros assuntos, a posição que devemos ter deve ser pautada pela serenidade, não deixando, naturalmente, de estarmos atentos a fenómenos menos desejados, que invariavelmente ocorrem quando as rotinas mais enraizadas de uma cidade são atingidas. São dores de crescimento que podem e devem ser atenuadas, mas o seu tratamento não deve ser inibidor desse crescimento.

 

Da mesma forma que a economia de um país não sobrevive apenas com o consumo e investimento nacional (o caso português é nisso exemplar), também não podemos pensar que a actividade económica urbana (comércio, serviços, restauração, etc.), que pretendemos que seja pujante, dependa apenas do consumo dos seus residentes, principalmente quando falamos de cidades que estão muito longe da dimensão daquelas com que normalmente são comparadas.

 

Aliás, a pujança económica que muitas das nossas cidades apresentavam até às décadas de 70 e 80 do século passado, devia-se exactamente ao facto de serem polos regionais de comércio, abrangendo uma quota de mercado muito superior à sua área urbana e disponibilizando produtos e serviços que não se encontravam noutros locais em redor.

 

Foi depois dessa época, aí sim com a fuga dos residentes para as periferias à procura de melhores condições de vida e de habitação nova (crédito bonificado), que se desenvolveram os novos centros comerciais (shoppings), também eles periféricos, que disponibilizavam tudo o que era preciso, debaixo do mesmo tecto.

"São dores de crescimento que podem e devem ser atenuadas, mas o seu tratamento não deve ser inibidor desse crescimento."

Neste contexto, e associando todo o conforto que caracteriza esta nova oferta (estacionamento, segurança, climatização…), foi-se retirando aos centros das cidades a quota de mercado que antes lhes era segura, acentuando as carências já existentes em relação à qualidade de vida, à salubridade e vetustez das habitações e à disponibilidade de serviços essenciais.

 

Entre as várias causas para a regeneração urbana que se observou a partir do início do século XXI, o turismo apresenta-se como uma das mais importantes, exactamente porque vem no sentido contrário ao da população local, redescobrindo as cidades e apresentando-as de novo aos seus habitantes. Também a alteração à lei das rendas e o licenciamento zero, promovidos pelo anterior Governo, de forma particular pela nossa Presidente do partido e por António Pires de Lima, enquanto ministros, vieram dar um estímulo essencial para a reabilitação do património e para o desenvolvimento de novos negócios nos sectores do comércio, serviços e restauração.

 

Estamos a assistir a uma mudança na forma de viver as cidades, com as pessoas a regressarem os seus centros e a usufruírem muito mais dos seus espaços públicos, dos seus jardins, do seu comércio de rua, dos seus restaurantes e da oferta cultural que lhes é apresentada.

Estes são os efeitos de uma regeneração urbana que estimula a procura, o interesse e notoriedade de uma cidade, não só no que ao turismo diz respeito, mas principalmente na atracção de investimento, no estabelecimento de novas empresas, de novos negócios, na consequente criação de emprego e fixação de residentes.

 

Também aqui é essencial o trabalho dos municípios na gestão de todos os interesses em causa e, nesse aspeto, realço o caso do Porto e as suas iniciativas na prossecução de equilíbrios na dinâmica diária da cidade. O regulamento dos transportes turísticos, o regulamento da Movida, o exercício de direitos de preferência sobre transacções de prédios para posterior colocação no mercado de arrendamento social ou a custos controlados, são alguns bons exemplos de como um município, estando atento aos fenómenos decorrentes deste rápido desenvolvimento, pode agir melhorando a qualidade de vida dos residentes, sem com isso condenar esse mesmo progresso. Só assim podem crescer as nossas cidades.

 

Não acredito, finalmente, que o nosso país se possa dar ao luxo de prescindir de um sector tão importante e tão transversal como o turismo, o que é muito diferente de achar que o devamos considerar um fim em si mesmo. De todo! Efectivamente, muito está em causa quando fazemos este debate. Por isso, procuremos não fazer dele uma luta de galos, sob pena de, no processo, matarmos a galinha.