// OPINIÃO Ana Clara Birrento _ // Dia da Mulher – Encontrar novas palavras e novos métodos

É para todos indubitável que a mulher é um dos pilares fundamentais da nossa sociedade, alguém detentor de um papel central na sua construção. Fiquem, porém, descansados, pois não vou fazer uma Ode à Mulher, nem uma elegia ao seu papel. No entanto, registo que, passados mais de 150 anos, ainda necessitamos de comemorar o Dia Internacional da Mulher. Significa isto que ainda há caminho a percorrer? Há, com certeza, e há que atravessar as fronteiras das palavras que todos os anos por esta altura se proferem, pois se ainda se comemora o Dia da Mulher é porque a sociedade não progrediu o suficiente. Hoje gostaria de partilhar algumas das minhas reflexões sobre esta matéria, porque estamos em vésperas de um congresso onde temos uma Mulher que nos lidera de forma serena, mas eficaz e assertiva, e dá voz ao CDS-PP como o único partido que é verdadeira oposição a este governo, que mais não faz do que tomar decisões ao sabor das circunstâncias. O CDS-PP tem sido o ÚNICO partido nesta legislatura onde todo o grupo parlamentar composto por homens e mulheres trabalham, apresentam propostas sérias, estruturadas e válidas para o país.

 

Ouvimos, em regra, falar em como as mulheres podem, com sucesso, competir com os homens e aprender a comportar-se mais como eles. São, por norma, discursos de aprendizagem de como jogar o jogo no mundo masculino. Confesso que o nosso valor vai muito além do tentar imitar os homens, o nosso valor consubstancia-se em honrarmos a feminidade. Repare-se que escrevo feminidade e não feminismo, porque não sustento o meu discurso político, ou a minha acção quotidiana, na ideologia feminista, sobretudo naquilo em que esta ideologia se tem tornado, onde uma certa esquerda gosta de colocar mulheres de um lado e homens de outro.

 

A primeira metade do século XX mudou as perceções de identidade, de classe, de género e mesmo de raça, transformando os paradigmas, enfatizando as diferenças, mas apostando na necessidade de partilha e de olhares comuns. Trouxe o que Virginia Woolf precozinava em 1938: encontrar novas palavras e novos métodos.

A inserção das mulheres no mercado de trabalho ocorreu de modo abrangente, a família transformou-se, acompanhando as tendências verificadas no mundo desenvolvido, a população envelheceu e urbanizou-se significativamente. O efeito conjugado destes movimentos alterou profundamente a vida das mulheres. Foi uma revolução impulsionada pela erupção de valores igualitários e emancipatórios, uma revolução que implicou uma ruptura no quadro de normas e valores da sociedade, e que reconheceu a igualdade entre homens e mulheres em termos de direitos e deveres de cidadania.

 

A luta pelos direitos foi uma etapa fundamental, e cabe às mulheres criar as suas condições, impor as suas ideias, contribuir para as estruturas de sensibilidade de uma sociedade que está cada vez mais acrítica.

 

A viragem do século XXI abriu horizontes de muitas formas que não passam só pelas questões de igualdade de género. As mulheres definem a sua própria vida e identidade pela sua ação e intervenção no mundo laboral, político, social e familiar.

 

A tradição de considerar a mulher como o segundo sexo, nas palavras de Beauvoir, como o Outro, na relação com a norma que é masculina, parece estar ultrapassada. Necessitamos ainda de um Dia da Mulher? O nosso papel hoje é o de afirmar que não temos de nos rever sempre nas imagens que a sociedade constrói sobre nós. A igualdade a prosseguir inclui a aceitação da diferença, uma dimensão valorativa da cidadania.

 

O exercício de uma nova cidadania das mulheres, traz novas dimensões à solução dos problemas do mundo, pelo carácter multifacetado que caracteriza essa cidadania e que resulta da natureza da identidade e da autoridade da experiência feminina. É uma cidadania que se baseia na importância do sujeito, na dignidade da pessoa e num novo contrato social numa comunidade de homens e mulheres igualmente livres.

"Em conjunto, numa sociedade mais integradora, com uma consciência crescente de que temos de ir para além da visão polarizadora, de um modelo masculino de sociedade e de tomada de decisão. Não faz mais sentido falar de luta pelos direitos, mas antes numa luta consciente e partilhada por mudanças reais neste mundo em que vivemos."

A plena cidadania feminina tem trazido novos rostos para lugares de decisão e tem transformado o poder na sua natureza mais intrínseca, combinando racionalidade, competência intelectual e profissional, com um cuidado do outro, com compromisso e sem demissão. É uma existência feita de proximidade e interação com todas as esferas essenciais da vida, com novas palavras e novos métodos.

 

Acredito que somos os sujeitos e os agentes da mudança, que criamos as condições de possibilidade para a construção da nossa identidade. Somos capazes de liderar, de ter família, de ter uma profissão, de cuidar dos filhos. Temos de avançar para um outro patamar – viver a igualdade por que se lutou, num mundo com diversas combinações familiares, de homens, mulheres e crianças, de jovens e menos jovens.

Em conjunto, numa sociedade mais integradora, com uma consciência crescente de que temos de ir para além da visão polarizadora, de um modelo masculino de sociedade e de tomada de decisão. Não faz mais sentido falar de luta pelos direitos, mas antes numa luta consciente e partilhada por mudanças reais neste mundo em que vivemos. Os níveis ontológico e epistemológico da categoria social, politica e cultural da mulher permitem-lhe um conhecimento que estrutura o ser e as relações sociais e constroem identidades femininas fortes, assertivas, eficientes e articuladas, não se confinando às regras da lógica social. A mulher do século XXI tem poder de intervenção em todos os níveis da vida da comunidade, mostrando grande confiança nas suas capacidades individuais e segurança nos seus ideais, trabalhando lado a lado com os homens. Sem falsas modéstias, eu e muitas mulheres do CDS-PP encaixam-se neste perfil, começando ou acabando (tanto faz a perspectiva) por Assunção Cristas.

 

﷯ folhacds 22 MARÇO 2018