// OPINIÃO João Pedro Begonha _ // Todos devíamos ser mais infantis

Como olhamos o Mundo, como nos relacionamos com terceiros, como reagimos aos mais diversos tipos de estímulos, como estamos mais ou menos concentrados numa sala de aula ou a ouvir uma história, tudo isso constrói-se a partir da primeiríssima educação e de reações que recebemos nos nossos Pais. Chegamos a este Mundo e o nosso norte é o Pai e a Mãe.

 

Desde muito cedo, devemos abrir os horizontes dos nossos filhos para a cultura, ensiná-los a apreciar histórias de fadas e vilões, mantê-los pacificamente à mesa numa refeição através de conversas construtivas e ouvir as suas histórias. Tal implica que os adultos se associem aos interesses das crianças em detrimento do dos próprios.

 

Infelizmente, nos dias de hoje, entretêm-se crianças à mesa com copos, que para além de servirem para beber água, equilibram telemóveis. O que ganha o adulto: a criança come, não chora e mantém-se deslumbrada com o mundo perfeito da cor e do som. O que perde a criança: as histórias magníficas que a avó estava a contar, a impossibilidade de interagir com a família e de contar as aventuras do seu dia, a oportunidade de errar ao expressar um termo verbal impróprio e de ser corrigida.

 

A relação com a natureza em total liberdade também é exemplo. Brincar na areia, na terra ou pisar poças de água são comportamentos naturais e muito apetecíveis para as crianças. Para o subconsciente castrador de muitos adultos, que já se esqueceram que foram crianças, é algo que não pode acontecer. Ou porque a criança se vai sujar, molhar os pés ou rasgar as calças, tudo é um filme de terror. Há que evitar! Como? Mentindo às crianças sobre as consequências de tão hediondos comportamentos. O que ganha o adulto: paz e sossego. O que perde a criança: liberdade, felicidade, criatividade, adaptação à natureza, a possibilidade de cair ao chão e de testar os seus limites.

O que quero com isto dizer é que noto que a minha geração preocupa-se muito pouco com o que é verdadeiramente importante para os filhos, como seja na atenção que lhes deve ser dedicada ou na liberdade que lhes deve ser concedida, e preocupa-se demasiado com as correrias excessivas, com o que comeram na escola, com as brincadeiras à chuva, com a demasiada velocidade que atingem na trotinete, ou mesmo com a roupa que vai ficar suja ou engelhada.

 

Existem crianças que não socializam, que são “hiperativas”, que têm défice de concentração, que têm medo de pisar a areia da praia, que consideram que tudo o que fazem é reprimível, que não sabem partilhar, que não conseguem ter uma conversa com início, desenvolvimento e fim.

 

Há razões que podem justificar muitos destes comportamentos, mas, certamente, uma boa percentagem da origem destes problemas deve-se aos pais.

 

Apelo aos que têm a felicidade e a responsabilidade de terem filhos a cargo para refletirem no modo como consistentemente lidam com os mesmos. Acima de tudo apelo a que lhes dediquem tempo, atenção e que lhes façam muitas (não todas) das suas vontades. Acredito que os pais que pecarem mais pelo excesso de liberdade e pelo excesso de infantilidade na relação com as crianças, tendencialmente, estarão a fazer melhor do que os que preferem o caminho oposto. É a minha opinião.

 

 

﷯ folhacds 19 ABRIL 2018