﷯ folhacds 16 MAIO 2018

CONVERSAS DO CALDAS

Duarte Nuno Vasconcellos

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Duarte Nuno de Canha Noronha da Câmara de Vasconcellos nasceu a 8 de junho de 1973, no Funchal. Licenciado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa. Produtor teatral. Fundou e dirige a Buzico! Produções Artísticas e Agência. Membro da Assembleia de Freguesia da Misericórdia (Lisboa) eleito pelo CDS.

Recebemos no Largo do Caldas, na sede nacional do CDS, o madeirense Duarte Vasconcellos para uns, ou Nuno Vasconcellos para outros, de família ou amigos de infância.

É militante do CDS desde 2011 e fez questão de referir que foi a participação do CDS no Governo numa altura muito complicada da vida nacional que o fez dar o passo de filiar-se e participar mais ativamente na vida política.

 

Antes disso, contou-nos que quando vivia ainda na Madeira fez parte de uma associação de estudantes, com uma direção apartidária, composta por elementos com sensibilidades políticas diversas, uns filiados em partidos, outros não. Dá nota dos bons resultados dessa experiência que esteve longe de constituir uma geringonça.

 

Revelou-nos ainda que em termos de envolvimento cívico e participação de cidadania, com uma motivação acrescida por uma perda humana próxima, foi voluntário durante quatro anos na associação Abraço, que presta serviços na área da problemática do VIH/SIDA. Estava a estudar na universidade e fora dela dedicava-se sobretudo à produção de eventos e espetáculos para angariação de fundos de apoio à causa da associação, o que o fez constatar “nunca tinha pensado nisso mas a minha escola começou aí”, numa alusão àquela que acabou por ser a sua vida profissional ligada à produção de programas, espetáculos e ficção em vários meios, desde a rádio à televisão e depois o teatro.

 

A propósito da formação universitária que acabou por ser em História, referiu ainda a passagem anterior e fugaz pelo curso de Direito, que ocorreu mais por encaminhamento familiar do que por um desejo pessoal. Depois de convencer os seus pais nesse sentido, e dando continuidade aos incentivos do avô paterno, a opção por História acaba por vencer e é, com efeito, a sua licenciatura completada. Contudo, o desempenho profissional no âmbito do curso de história, foi quase tão fugaz como a sua passagem por Direito, ainda que por motivos necessariamente diferentes. Desenvolveu trabalho técnico no arquivo da antiga Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) a tratar vários espólios de arquitetos, nomeadamente de “Chorão Ramalho, que trabalhou muito na Madeira, e portanto foi muito curioso ter lidado com esse material”. Ainda assim, o trabalho não o preenchia por completo, nomeadamente o horário das nove às cinco, que curiosamente o fazia quase que desesperar de tanto tempo livre. Acaba por colaborar, a tempo parcial, enquanto responsável pela bilheteira na antiga Companhia Teatral do Chiado.

Entretanto, na DGEMN verifica-se a eminência de redução de pessoal e entre o nosso convidado e uma colega, um deles teria de sair. Duarte Vasconcellos fez saber que se ele saísse não ficaria no desemprego, inclusivamente passaria a trabalhar a tempo inteiro no teatro, ao contrário da sua colega no arquivo que ficaria sem trabalho. Dá para adivinhar o sucedido. Duarte deixou as funções de historiador no arquivo e dedicou-se integralmente à produção teatral.

 

Já lá voltaremos, mas entretanto falámos do CDS. Filiou-se na Madeira, ou seja a proposta de adesão foi preenchida na ilha, chegou a participar numa campanha eleitoral na região durante as suas férias, mas como já residia em Lisboa, onde tinha (e tem) morada, ficou filiado na concelhia da capital. Há quase dezasseis anos que vive no bairro lisboeta da Bica e ao aderir ao CDS ganhou “a consciência da importância da política local e da necessidade de uma intervenção maior”, afirma o também autarca na Assembleia de Freguesia da Misericórdia. Reconheceu que o seu grande desafio político até ao momento foi nas eleições autárquicas de outubro do ano passado. A Concelhia de Lisboa do CDS, presidida pelo Diogo Moura, e a cabeça-de-lista à freguesia, Helena Nogueira Pinto, convidaram-no para participar como número dois na lista candidata. Confessou que tal o surpreendeu, pois não estava no seu horizonte sequer ser candidato quando participou em reuniões para discutir os problemas da freguesia. Acabou por aceitar e foi eleito diretamente.

 

É da opinião que as assembleias de freguesia, bem como as municipais, deveriam ter mais poder de intervenção, pois mesmo que não se verifique uma maioria absoluta, a sua capacidade de intervenção, na opinião do nosso convidado, poderia ser bem maior. Entende que as assembleias do poder local deveriam aproximar-se mais, em termos de funções e peso, da Assembleia da República e na relação que esta tem com o Poder Executivo. No terreno desta freguesia, que é a fusão de quatro das antigas juntas, o autarca aponta vários sectores que são fonte de riqueza mas também de problemas, nomeadamente o património cultural, os locais históricos, a vida noturna, o turismo e o alojamento local e os moradores, que estão organizados em três associações distintas, com pouca articulação entre si e “que funcionam não numa lógica mais abrangente na freguesia mas muito vocacionadas para os problemas do seu bairro”. São elas a do Bairro Alto, a de Santa Catarina e a “Aqui mora gente” muito virada para os problemas da rua cor-de-rosa no Cais do Sodré, o ruído, o lixo, os grafittis.

Duarte

Nuno

 Vasconcellos

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A ideia que a

“cultura é uma

coutada da esquerda,

 é mentira!”

A ideia que a “cultura é uma coutada da esquerda, é mentira!”, exclama. A presidente do CDS, que tem insistido numa centralidade para a cultura, em recolocar a cultura como uma das prioridades nacionais é a prova disso mesmo. Duarte Vasconcellos acha importante que a cultura e a educação não estejam de costas voltadas, fala inclusivamente da altura em que havia um Ministério da Educação e Cultura. Relembra que o primeiro ministro da Cultura, enquanto pasta autónoma, foi uma personalidade “que veio e esteve nesta casa, Francisco Lucas Pires”. Foi com um governo de coligação das forças políticas ditas de direita em Portugal que criou um Ministério da Cultura e não um governo de esquerda, “muitas vezes as pessoas esquecem-se disto!”, remata o nosso convidado.

 

Vê como útil e necessário “haver um longo debate sobre todas as áreas da Cultura”. Reforça ainda mais esta ideia ao passar em revista os últimos governos, desde Sócrates a Passos Coelho e por fim António Costa, que não tinham “uma verdadeira política para a cultura”. Nos de Sócrates houve três ministros da cultura, ou melhor, duas ministras, Isabel Pires de Lima e depois Gabriela Canavilhas, e pelo meio um ministro, José António Pinto Ribeiro, que não tinham necessariamente a mesma visão e a mesma postura perante o setor. No Governo de coligação liderado por Passos Coelho, dois secretários de Estado tutelados diretamente por este, ou seja, pelo primeiro-ministro, Francisco José Viegas seguindo-se Jorge Barreto Xavier, que segundo o nosso convidado representavam duas linhas distintas. Já com António Costa, dois ministros da Cultura, primeiro João Soares e o atual titular da pasta, Luís Filipe Castro Mendes. Duarte Vasconcellos, apesar de crítico em relação à ausência transversal de “uma política pensada para a Cultura” aos vários governos, destaca ainda assim aspetos positivos na atuação de Isabel Pires de Lima, João Soares e Francisco José Viegas, que terão tido em comum a coragem política de fazer frente a certos interesses instalados e também por isso não terão levado até ao fim os seus mandatos.

 

É ainda trazida para a conversa, com ironia, a capacidade notável que o atual primeiro-ministro tem em se surpreender e ser surpreendido por membros do seu próprio governo, nomeadamente quando foram divulgados os resultados do concurso de atribuição de apoios às artes. Aponta ainda vários exemplos de companhias artísticas que foram prejudicadas pelo atual modelo em vigor, com linhas artísticas diferentes e até sensibilidades políticas distintas, desde o Teatro Experimental de Cascais, dirigido por Carlos Avilez até à Escola de Mulheres, dirigida por Fernanda Lapa.

 

É da opinião que os privados também devem apoiar o sector cultural desde que se introduzam alterações significativas à Lei do Mecenato, que não favorece essa situação. O que está em vigor faz transparecer “que o Estado desconfia de quem quer investir ou apoiar uma companhia de teatro, uma peça, uma orquestra.”, mencionou Duarte. “Por muito que um privado queira apoiar alguma entidade ou acontecimento cultural, mais não seja por dever ou responsabilidade social, ou até só para ficar bem na fotografia o que também acontece, não vê com bom olhos a atitude de policiamento por parte do Estado”, remata. São inclusivamente indicadas situações em que se torna preferível, da parte da entidade apoiante, o patrocínio e o que isso implica em termos do IVA, do que um apoio ao abrigo Lei do Mecenato. Elenca ainda algumas particularidades relacionadas com esta lei, “quando o Teatro Nacional de São Carlos dizia que tinha o apoio exclusivo do Millennium BCP tal não corresponde à realidade, pois era através da Fundação Millennium que não está sujeita à fiscalização policial por parte das Finanças.

Quando o Teatro Nacional D. Maria II tinha um apoio da PT, era através da Fundação das Comunicações. Só incentiva o mecenato por parte de grandes empresas, que tenham dimensão e condições para criarem fundações que facilitem os apoios, só compensando se tiverem em causa verbas avultadas, o que deixa de fora uma série de outras situações e apoios a entidades e companhias de menor dimensão”.

 

Participou no protesto ocorrido no passado dia 13 de abril, levado a cabo por artistas e agentes culturais, que exigia a descida do IVA para a taxa de 6% nos espetáculos culturais, que apelidou de “um sucesso”. Durante o período de ajustamento financeiro a decisão acabou por ser uma taxa intermédia de 13% para este segmento cultural (caindo por terra a intenção inicial de subida para os 23%), o que ainda assim acarretou dificuldades para muitos agentes culturais, com pequenas produtoras, como a de Duarte Vasconcellos, que trabalham sobretudo à bilheteira. “Este Governo está em funções há mais de dois anos e nada fez para que essa taxa descesse”, foi a resposta de Duarte quando confrontado por alguns com o facto de o CDS estar a participar no Governo quando se verificou esse aumento. Diz-se muito satisfeito com a proposta do CDS para que entrasse em vigor novamente a taxa mínima de 6% de IVA para os espetáculos culturais, apresentada no âmbito da alternativa ao Programa Nacional e Reformas (PNR) do Governo.

 

Completa este entendimento como a alusão ao caso espanhol, em que a descida do imposto equivalente para a taxa mínima foi uma decisão claramente política, em que o orçamento do Estado já estava a vigorar, frisando que só não acontecerá cá “se não houver vontade política, se virmos bem as verbas em questão não têm assim tanto peso orçamental, será mesmo por falta de vontade política”. Referiu-se às contradições da geringonça ou das esquerdas encostadas, em que elementos do PCP, como Jerónimo de Sousa, ou do BE, como Catarina Martins ou Mariana Mortágua, gostam de se fazer fotografar a participar nestas manifestações e protestos ao lado dos artistas, dos agentes culturais e depois no Parlamento não se batem a sério por um melhor orçamento para a Cultura, tendo aprovado os últimos Orçamentos do Estado, que nem de perto nem de longe chegam ao “1% para a Cultura”.

 

Antes de terminarmos perguntámos ainda ao Duarte Vasconcellos, o que nos poderia dar a conhecer da sua pessoa para além das atividades profissional e política. Diz-se de “gostos muito ecléticos”, quer ao nível do teatro, quer da música, quer do cinema, tem ligação com o teatro também como espectador, “embora nem sempre seja possível sobretudo quando temos espetáculos nossos em cena”. Revela com um sorriso largo que não poucas vezes completa as suas gargalhadas, sonoras e expressivas, que “gosto muito de estar com os amigos”. Brinca com o seu nome e o uso da terceira pessoa para transmitir que “o Duarte Nuno é uma pessoa que gosta da caridade e tem problemas em aceitar a palavra solidariedade”, justificando que “a caridade é o ajudar o próximo e a solidariedade é ajudar a humanidade, que é uma coisa vaga que não sabemos muito bem o que é”. Confessa-se irritado com a carga depreciativa que foi posta na palavra e no conceito de caridade. É uma pessoa muito preocupada com aqueles que o rodeiam, desde a família aos amigos, com aqueles de quem gosta, “preocupo-me muito com o bem-estar dos outros”, diz com serenidade. É um conversador nato, “gosto muito de conversar”, o que ficou mais do que provado e comprovado. Mesmo antes do final diz ainda “e gosto muito dos meus cães, o Buzico e a Mimi”. Buzico que deu o nome e o logótipo à produtora e agência de atores que fundou e dirige.