﷯ folhacds 27 JULHO 2018

CONVERSAS DO CALDAS

CECÍLIA CARMO

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Cecília Maria Santos do Carmo nasceu a 5 de janeiro de 1965, na Amadora. Licenciada em Ciências da Comunicação e pós-graduada em Direito do Desporto. Foi jornalista no Semanário Expresso, na RTP, onde também desempenhou funções de coordenação e direção. Foi coordenadora do canal e é diretora de comunicação do Comité Olímpico de Portugal. É vogal da Comissão Política Nacional do CDS.

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Cecília Carmo, rosto conhecido da generalidade dos portugueses, sobretudo através da RTP. Mas, como verão, é muito mais para além disso. Em fevereiro deste ano aderiu formalmente ao CDS. É desde o Congresso de Lamego (março de 2018) vogal da Comissão Política Nacional, sob a presidência de Assunção Cristas.

 

O foco muito centrado no seu trabalho jornalístico não lhe fazia sobrar muito tempo para outras atividades, nomeadamente a participação cívico-política mais direta. O próprio trabalho jornalístico não era, nem é, compatível como a prática político-partidária ativa. Contudo, e passados alguns anos, considerou que tinha chegado a altura de dar mais de si à comunidade e que seria interessante e útil fazê-lo através da participação política por via do CDS. Do espectro político-partidário português, Cecília reconhece que são os valores e os princípios do CDS aqueles com os quais se identifica mais, e que essa proximidade não é de agora. Contudo, e conforme referido, dada a sua profissão anterior achou que não seria ético torná-lo público e enquanto tal preferiu, na altura, prosseguir no caminho da imparcialidade. “A partir do momento em que posso deixar de ser imparcial passei a assumir publicamente as minhas convicções”, enfatizou Cecília Carmo.

 

Em 2005 deixou a exclusividade, digamos assim, do jornalismo desportivo e passou a acompanhar mais outros temas, a informação em geral, nomeadamente a atualidade política. Entrevistou personalidades ligadas à política, mas também à economia, à ciência, às artes. Com essa experiência e também por uma vontade de contribuir para uma sociedade melhor afirmou que pretendia praticar o que considera “ fazer política é fazer serviço público”.

Antes de nos focarmos no percurso político, ainda breve, da nossa convidada, conversámos sobre as relações entre o meio político e a comunicação social, entre políticos e jornalistas. “Pessoalmente nunca sofri pressões, nunca me disseram para fazer determinada pergunta ou entrevistar de forma direcionada esta ou aquela pessoa. Depois de alguns momentos, reportagens ou entrevistas, receber contactos a prestar esclarecimentos ou a retificar algumas informações, isso aconteceu, mas não considero isso uma forma de pressão.”, clarificou Cecília.

 

Prosseguiu, “há diálogo entre políticos e jornalistas, como há entre vários outros setores da sociedade. O que por vezes sucede, é não saber definir as fronteiras, saber até onde o jornalista pode ir, saber onde está o trabalho do político, do economista, do professor universitário, do desportista”. Completou com um exemplo, “este governo tem boa imprensa. O que é que quero dizer com isto? Alguns órgãos de comunicação social não relatam, não retratam fielmente o que se passa em relação a comportamentos de personalidades ligadas, direta ou indiretamente, a este governo ou a esta coligação forçada”. Acrescentou, não concordando, no entanto, que a comunicação social na sua maioria seja tendencialmente de esquerda, que “por vezes a tal fronteira de que falava não está muito bem definida e há pessoas que consoante varia o poder adaptam-se às marés, isso há, agora manipulação é uma palavra muito forte e creio que injusta em muitos casos”.

CECÍLIA

CARMO

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"CDSTV É um projeto fantástico, tem espaço para crescer mais(...) Basta subscrever de forma gratuita no Youtube e recebemos as notificações de peças sobre a atividade do partido, mais uma notícia, mais um jornal, mais um acontecimento."

Não vê como imperativo de transparência a assunção mais clara, como acontece em Espanha por exemplo, por parte de jornais ou de outros órgãos de comunicação social do seu alinhamento político. “Mesmo não sendo assim, nós percebemos quais as tendências”, sublinhou. “A geringonça muitas vezes tem boa imprensa porque quem cala consente. A missão do jornalista é informar e não deformar. É preciso fazer o trabalho de casa e informar com consistência. Há que haver lugar ao contraditório. Quem está no poder acaba por ter sempre mais protagonismo do que quem não está. Se isso é bom? Não, não é bom. Mas é assim que funciona muitas vezes.”

 

Cecília Carmo transmitiu-nos que gostaria que as coisas evoluíssem num sentido diferente e empenhou-se nisso quando dirigiu estagiários “que ajudei a entrar na redação e no meio, que hoje são jornalistas com nome na nossa praça. Dizia-lhes muitas vezes que é preciso parar para pensar. Eu aprendi com os melhores. Aprendi com um senhor, que foi o meu grande mestre, que era de esquerda. Já faleceu. Um jornalista assumidamente de esquerda, mas que tinha os valores e toda a ética e a deontologia dos jornalistas sempre presentes. José Manuel Marques, o grande mestre que eu tive!”, exclamou. “Meu e das pessoas da minha geração que trabalhava na RTP. Não compactuava com injustiças, era de uma verticalidade, chegou a demitir-se das suas funções de chefe de redação para proteger um colaborador que estava a ser injustiçado e as coisas lá se compuseram”, completou ainda. “Estes valores, neste momento, as pessoas não os têm ou não os querem ter, não têm tempo para os ter”, acabou por ironizar a nossa convidada.

 

“As redes sociais muitas vezes já estão a funcionar como órgãos de comunicação social, já existem muitas ferramentas à disposição, o que vem comprovar que a quantidade, muitas vezes, não corresponde a qualidade.”, especificou a ex-jornalista. “A informação disponível é tanta e tão deturpada, a própria escolha da informação a divulgar vem demonstrar que muitas vezes as prioridades estão erradas, que há muito espaço para o sensacionalismo e para o voyeurismo. Ou então é uma estratégia por parte de quem trabalha na comunicação social e sou eu que estou démodé”, ironizou uma vez mais.

 

Em relação à comunicação do CDS com a sociedade, com o eleitorado, Cecília Carmo reforçou a ideia da condicionante da influência e do peso político. “O CDS como partido mais pequeno, ou não tão grande como outros em termos eleitorais, vê certas ideias e posições pouco divulgadas. Quando certos assuntos alcançam uma difusão mais ampla, por vezes constata-se que o CDS já tinha marcado posição sobre o tema há meses. Já aconteceu com a eutanásia, com os impostos sobre os combustíveis e a proposta do CDS para eliminação do adicional sobre o ISP, que foi chumbada pela maioria de esquerda”, acrescentando outras contradições entre o discurso anterior e ação política presente dos partidos da geringonça, que nem sempre são abordadas de forma mais clara e explícita pela generalidade da comunicação social.

Dito isto, referiu-se aos meios de comunicação utilizados, neste momento, pelo CDS para tentar difundir de forma o mais abrangente possível a sua mensagem, nomeadamente a CDS TV. “É um projeto fantástico, tem espaço para crescer mais, à medida que for tendo mais meios irá alargar o seu alcance no universo de militantes, simpatizantes e apoiantes do partido”, declarou com confiança. “Basta subscrever de forma gratuita no Youtube e recebemos as notificações de peças sobre a atividade do partido, mais uma notícia, mais um jornal, mais um acontecimento”, exortou. “É um instrumento que deve ser mais divulgado, mais visto, mais apoiado, pois demonstra que o CDS não está parado, a sua direção e a sua presidente não estão parados, estão no terreno, junto das pessoas, o CDS intervém em inúmeras matérias na Assembleia da República, através dos nossos deputados, coloca na ordem do dia assuntos que não estão na agenda política e que passam a estar, mesmo que outros se venham vangloriar que foram eles. Precisamos de mais visibilidade, de mais exposição para se perceber o muito trabalho que é feito, que o CDS é proativo e quer levar este país para a frente!”, rematou Cecília Carmo.

 

Manifestou-se preocupada com a negociação e debate do próximo Orçamento do Estado. “Este Governo parece que não aprendeu com os problemas das cativações. Para além disso, dada a proximidade de eleições, é preciso que se façam bem as contas e ter muita atenção a este orçamento e ao próximo, pois é nessas alturas que poderá haver tentações, mais a pensar nas eleições do que no melhor para o país”, alertou a dirigente nacional do CDS. E não se ficou por aí, “já se fizeram bem as continhas, se os valores atribuídos para a reposição de rendimentos foram os mais acertados? Mas podem dizer, não repor os rendimentos seria prejudicar as pessoas. A questão é se as reposições correspondem aos valores mais sustentáveis e se não sendo, não acabarão por prejudicar os contribuintes e o país? Ao tapar-se este buraco, que buracos noutros lados ficarão destapados?”.

 

Os problemas e carências no sector da Saúde, que não deixam de estar interligados com a questão orçamental, e muito, preocupam também a nossa convidada. As promessas de melhorias e investimento na área, que não se têm confirmado, podem gerar situações graves, sobretudo nos períodos de pico e maior afluência aos serviços de saúde. “Tem de haver mais planificação, não se pode governar só para o imediato. O dia-a-dia é importante mas não se deve ficar por aí. Não se pode prometer aquilo que não se pode cumprir. Em vez de prometer dar um copo cheio de água, atribuir meio copo e querer uma gestão da sede com essa quantidade disponível. É mais honesto! Pode não dar tantos votos. Pois não, mas também não engana as pessoas.”, transmitiu-nos de forma simples e clara.

 

CECÍLIA

CARMO

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"É um instrumento que deve ser mais divulgado, mais visto, mais apoiado, pois demonstra que o CDS não está parado, a sua direção e a sua presidente não estão parados, estão no terreno, junto das pessoas"

“Se estas situações se passassem num governo onde estivesse o CDS, por exemplo com o PSD, ai jesus, que eram os piores do mundo, só fazem disparates!”, criticando esta visão facciosa dos partidos e da política.

 

Cecília Carmo é também autarca (em substituição) no concelho de Cascais. Nunca tinha tido essa experiência, mas pelo relato terá sido amor à primeira vista. “É muito bom estar por dentro das políticas autárquicas e do dia-a-dia dos munícipes”, disse entusiasmada. Deixou um elogio à gestão municipal em Cascais, “pelo trabalho desenvolvido, as decisões tomadas, os protocolos firmados, a Câmara de Cascais trabalha muito bem, e os dois partidos da coligação, o CDS e o PSD estão a trabalhar muito bem em conjunto”. Completou este elogio, “o nosso vereador, o Frederico Almeida está a fazer um trabalho notável, na área da educação e na área social sobretudo, mas não só, e está a fazê-lo junto das pessoas, percebendo-as bem”.

 

“Apesar de ter participado na Assembleia Municipal como suplente, pois não sou efetiva, e já ter assistido a várias dá para sentir o pulso e a dinâmica de funcionamento”. Também aqui apresentou uma visão crítica do facciosismo partidário exacerbado, “só porque certas propostas, que são claramente para bem dos munícipes, vêm dos partidos que suportam a coligação que exerce o poder, a oposição vota contra, ou então abstêm-se só para não assumirem que aquela proposta é boa”.

 

“A política local é fundamental e ainda não se dá importância suficiente ao trabalho que se faz nas autarquias. Esse trabalho é determinante para ajudar o país a seguir em frente”, mencionou com determinação. “Este executivo está a deixar obra, vai deixar um legado. Só quem não quiser é que não compreende isto. Em prol dos munícipes, das pessoas, de toda a gente. E quando digo toda a gente, é toda a gente, desde a pessoa mais desfavorecida até ao grande empresário”. Não se revê em preconceitos ideológicos e referiu que “se alguém tem uma empresa que dinamiza o concelho de Cascais não vejo que só por ser empresário a autarquia deva prejudicá-lo. O privado faz parte da nossa sociedade e do seu desenvolvimento, não substitui o público, ajuda-o a fazê-lo crescer, são complementares”.

 

Já na fase final desta nossa conversa com Cecília Carmo, a quem reiteramos o agradecimento pela sua disponibilidade e simpatia, falámos de outras facetas suas, a agrícola e a musical. “A Cecília música já foi mais”, confessou-nos. Estudou na Academia de Amadores de Música de Lisboa, agora agregada ao Conservatório Nacional. Tirou o curso de flauta de bisel, “tive uma professora fantástica, a Maria da Assunção que teve de deixar o seu grupo de alunas para ingressar num convento”.

A própria Cecília Carmo desde cedo, “desde os meus 15, 16 anos dei aulas de educação musical, de flauta, até à altura do meu segundo ano da faculdade”. Acumulava com as aulas de ginástica, para além das suas, era também monitora e “como o dia tinha só 24 horas, alguma coisa acabaria por ficar mal feita, com a agravante de ter começado a trabalhar no jornal Expresso”.

 

Teve de fazer escolhas e “deixei para trás a música. Conservo religiosamente as minhas flautas, as bases estão lá, mas precisava de treinar muito para voltar a tocar, Bach por exemplo. O básico não desapareceu, mas para tocar ao nível em que tocava, sim, teria de treinar muito novamente”. Ao elencar as suas preferências musicais não hesita em começar pela música clássica, nomeadamente barroca e de instrumentos de sopro, mas o rol é mais vasto e eclético. “Sou uma pessoa muito sentimentalista e gosto muito de baladas. Não gosto de heavy metal e hard rock mas há grupos que têm baladas lindíssimas, como os Scorpions, e isso já gosto”. “Tenho grupos de que gosto muito como os Queen, Genesis, Pink Floyd mas também outros que alguns consideram pirosos como os Abba”, disse entre risos.

 

Ao nível de música nacional escolheu o Fado, referiu o nome de Marisa. Revelou gostar do fado mais tradicional e da voz de Amália Rodrigues, mas também de nomes mais contemporâneos como Ana Moura ou Carminho. Noutro género destacou Rui Veloso.

 

A agricultura entrou na sua vida, e na do seu marido, médico de profissão, há quatro anos. “Recuperámos um monte no Alentejo, com vinha e olivicultura. Era um sonho dele, ter uma vinha, a paixão e a dedicação que teve a este projeto levou-me atrás”, manifestou Cecília sorridente. “Nasci e vivi na cidade mas agora considero-me uma verdadeira agricultora. Um projeto de agricultura requer muito trabalho e acompanhamento”. A sua produção irá chegar ao mercado, já terá faltado mais, e poderemos provar o vinho e o azeite daquela região ente Serpa e Pias.

 

Cecília Carmo em virtude desta atividade, que continua a conjugar com outras como vimos, é membro do Conselho Consultivo das Mulheres Agricultoras, da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). Está a aprofundar os seus conhecimentos técnicos e para isso está a frequentar uma pós-graduação em Wine Business no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

 

“Plantar sementes, semear, dar frutos e saber cuidar dos frutos. Embelezar aquilo que construímos. É uma mensagem válida para tudo. Não só para a agricultura ou a política. Para tudo.”, transmitiu-nos no final.