﷯ folhacds 18 SETEMBRO 2018

CONVERSAS DO CALDAS

Isabel Santiago Henriques

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Isabel Maria Pinheiro e Silva Santiago nasceu em Aveiro a 4 de maio de 1960. Militante de base do CDS. Fotógrafa.

É nossa convidada desta edição, saindo por instantes de trás da lente para conversar com a Folha CDS, com quem colabora habitualmente.

 

Para além de registar fotograficamente iniciativas e a atividade política do CDS, nomeadamente da sua presidente, Assunção Cristas, Isabel Santiago Henriques faz autênticas fotoreportagens da vida dinâmica do partido, dos seus dirigentes, militantes e simpatizantes.

 

Mas antes de chegar à fotografia já tinha chegado ao CDS, ou o CDS a Isabel. Isto em Aveiro, de onde é natural e onde residia antes e também após o 25 de abril de 74.

 

Em 1975 ou 76 participou numa lista candidata à associação de estudantes do liceu de Aveiro, equipa essa assumidamente do CDS. Isabel nesse momento ainda não era militante mas já era próxima dos princípios do partido. Saíram vencedores desse ato eleitoral e não tiveram a vida facilitada num período turbulento da vida nacional. Contudo, reconhece que não foi essa participação associativa que fez crescer o entusiasmo pela participação política, que de resto já existia.

 

O momento em que prosseguiu os seus estudos na Suíça, decisão familiar e também pessoal dada a instabilidade no país e no sistema educativo, acabou por determinar um desligar em relação ao meio político-partidário, relembrando que estávamos numa época em que os meios de comunicação e informação não eram aquilo que são hoje. Fez um balanço

 

positivo da experiência suíça, contudo, regressada a Portugal em 1980, casa nesse mesmo ano, e a sua vida começa a ganhar novos contornos. Inicia a sua atividade profissional em funções ligadas às empresas do pai nas quais prossegue até ao ano 2000, tem três filhos. A política e a proximidade ao meio partidário, nomeadamente ao CDS, estavam muito esbatidas. “As coisas têm uma certa sequência, que quando é quebrada, gera-se um corte. O rumo tinha mudado, sem ser muito pensado ou programado, mas tinha mudado. Continuei muito interessada por política mas não a tomar parte ativa na política”, esclareceu Isabel.

 

Recordou ainda um momento em que inverteu um pouco esse rumo e participou em 1986 em vários momentos da campanha eleitoral das presidenciais, a apoiar Freitas do Amaral, mas como a própria afirma “apenas como simples cidadã, sem estar como hoje por dentro das campanhas”. “Pegava nos meus filhos ainda pequenos, com as bandeiras, os chapéus, e íamos em várias caravanas, já não me recordo bem onde”, mencionou com animação.

 

A dada altura é contactada pelo CDS de Aveiro para voltar a participar, “mas o corte já se tinha dado e sabia que, como gosto muito de política, se isso voltasse a acontecer, ia ser o caos na minha vida!”, exclamou.

 

Contudo, a vinda para Lisboa determinou nova alteração de rumo. As empresas do pai ficaram entregues aos seus irmãos e é já na capital que faz um workshop de fotografia com Luís Carvalho, que havia trabalhado no semanário

 

Isabel

Santiago

Henriques

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Depressa cheguei à conclusão que não sabia nada. É muito fascinante tomar consciência que temos uma enorme quantidade de coisas para aprender. Se puderes acrescentar conhecimento a uma coisa que fazes com muito gosto, é mesmo muito interessante!

Expresso, com quem virá a colaborar nos programas de televisão “Fotografia Total” e “Fotobox”. Entretanto, tinha começado a repensar paulatinamente a sua vida profissional e preparava-se para regressar ao trabalho empresarial. Mas a formação em fotografia, que durou nessa ocasião apenas um fim-de-semana, foi excessivamente curta para o entusiasmo que gerou na nossa convidada. “Fiquei completamente maravilhada. Andei toda a minha vida a tirar fotografias e a achar que percebia alguma coisa de fotografia. Depressa cheguei à conclusão que não sabia nada. É muito fascinante tomar consciência que temos uma enorme quantidade de coisas para aprender. Se puderes acrescentar conhecimento a uma coisa que fazes com muito gosto, é mesmo muito interessante!”, exclamou Isabel.

 

No verão de 2010, Luís Carvalho organiza novo curso de fotografia, desta vez mais completo, e Isabel volta a inscrever-se. Em outubro desse ano, novo curso, desta feita de fotojornalismo, e Isabel é incentivada pelo próprio Luís Carvalho a frequentá-lo. Revelou-se completamente empenhada, entusiasmada e trabalho após trabalho vai aprendendo cada vez mais “sobre os enquadramentos, sobre a luz, as técnicas. A fotografia de facto é um universo fascinante de possibilidades”. O curso de fotojornalismo “estava a encher-me as medidas, a divertir-me imenso e fui protelando o regresso à atividade empresarial”, revelou-nos Isabel Santiago.

 

Em maio de 2011 está em curso a campanha eleitoral para as eleições legislativas antecipadas de 5 de junho. Isabel Santiago Henriques, apesar do afastamento da participação político-partidária mais ativa, foi sempre acompanhando a vida política nacional, intervindo com opiniões e comentários em vários meios digitais, redes sociais, espaços de opinião, caixas de comentários de jornais. Nesse acompanhamento da campanha Isabel constatou que não tinha acesso a imagens do que se estava a passar nas ações do CDS. “Mas o que é que se passa que não vejo uma fotografia da campanha do CDS?! O que é que estão a fazer na campanha?”, questionou-se por diversas vezes.

 

Quando conseguiu ter acesso a um calendário das ações de campanha que fora divulgado, dirigiu-se a uma das feiras na área da grande Lisboa que constava no mesmo. Sem conhecer ninguém do CDS, a não ser das prestações televisivas, é abordada pelo Pedro Mota Soares e a Teresa Caeiro que lhe entregam um panfleto da campanha. É nesse momento que manifesta o seu desejo de colaborar mais ativamente e de acompanhar as ações de campanha enquanto fotógrafa, estando ainda a frequentar o curso de fotojornalismo mencionado anteriormente. A partir daí, todos os dias de manhã o diretor de campanha, na ocasião o João Gonçalves Pereira, ia buscar a Isabel Santiago Henriques e passou a haver reportagem fotográfica diária da campanha no distrito de Lisboa.

Precisamente como consequência da divulgação dessas fotografias, Isabel contou-nos que alguém num comício em Viseu havia perguntado ao Pedro Mota Soares quem é que andava a tirar as fotografias em Lisboa. Esse alguém era nem mais nem menos do que o presidente do partido na altura, Paulo Portas. A nossa convidada que era (e é) sua admiradora confessa e ainda não o conhecia pessoalmente ficou “em estado de choque”. Passou a conhecê-lo e inclusivamente registou o momento em que Paulo Portas exerceu o direito de voto, antes de rumar a Aveiro onde ainda estava recenseada e depois regressar a Lisboa, para fazer a cobertura fotográfica da noite eleitoral no Largo do Caldas.

 

Ainda durante a campanha eleitoral, entusiasmada com esta nova fase da sua vida, filia-se oficialmente no CDS. No começo de 2012 começa a trabalhar com o fotógrafo Luís Carvalho no programa de televisão “Fotografia Total”, na TVI 24 e depois na RTP 3, o “Fotobox”. Estes programas utilizaram “meios mínimos para uma qualidade máxima”, foi assim que Isabel retratou essa experiência profissional, na qual eram só os dois, de forma polivalente, a fazer acontecer os ditos programas. Pelo meio fez menção a um outro, “Mundo Imobiliário”, de duração mais curta, também da autoria e realização de ambos. Aproveitou para deixar um elogio forte a Luís Carvalho, pelos ensinamentos que lhe transmitiu e “pela inspiração que é enquanto fotojornalista”.

 

Perguntámos-lhe se alguma vez tinha equacionado passar para a frente das lentes, isto é, exercer política de uma forma ainda mais ativa e visível. Isabel respondeu: “Tarde demais!”. Alegou preferir continuar neste registo, dar lugar aos mais novos que tenham essa vontade e essa ambição, ressalvando que todos aqueles que da sua idade ou até mais velhos que as tenham também, o fazem legitimamente e estão no seu pleno direito. Mas é da opinião que são os mais novos que irão tomar as rédeas do país, “podendo, se quiserem ouvir os mais velhos e pedir-lhes conselhos”. Prefere prosseguir no mesmo registo, nas mesmas funções, no entanto não subscreve o “desta água não beberei”.

 

Ao comentar a frase ou chavão “uma imagem vale mais do que mil palavras” reconheceu-lhe alguma verdade, depende das imagens, “mas tanto para o bem como para o mal”. “Uma imagem manipulada de forma mal-intencionada por ser bastante prejudicial e dissimular a realidade. A ilusão acontece em política e também no fotojornalismo. Pode haver imagens bastante enganadoras”.

O fotojornalismo é, sem sombra de dúvida, a sua área de eleição no universo da fotografia. Se tiver de trabalhar num outro registo assume que será a street photography, como de resto já aconteceu numa exposição de fotografias suas há uns anos atrás. “É muito raro fazer fotografias sem pessoas, tem de ter o lado humano, é muito raro fazer fotografias de

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Uma imagem manipulada de forma mal-intencionada poD ser bastante prejudicial e dissimular a realidade. A ilusão acontece em política e também no fotojornalismo. Pode haver imagens bastante enganadoras

de paisagens, por exemplo”. Completou ainda com esta imagem “fotografia sem pessoas é como comida sem sal”. Isabel Santiago Henriques fez questão de sublinhar que com isto não quer manifestar qualquer desprezo por determinados tipos de fotografia, reconhece de resto que há fotografia, inclusivamente feita em Portugal, com muita qualidade e com reconhecimento internacional, de arquitetura por exemplo. “Prefiro registar as pessoas em ação, em interação“. É apenas uma questão de preferência pessoal”, rematou.

 

Sublinhou também, numa ligação não propositada, entre fotografia e política, a expressividade emocional muito acentuada que Assunção Cristas manifesta na abordagem às pessoas e das pessoas à presidente do CDS. Aproveitámos e mudámos a agulha da linha da conversa para aquilo que o CDS ainda tem para dar aos portugueses e aquilo que os portugueses podem esperar do CDS.

 

Isabel é crítica em relação à governação da geringonça, no que diz respeito às reversões de muitas das políticas que o governo anterior levou a cabo e do rumo que este governo do PS com as “esquerdas encostadas” está a tomar, não antecipando nada de bom se se insistir neste caminho. Refere-se às cativações que acabam por prejudicar os serviços públicos que devem estar precisamente ao serviço dos cidadãos, desde os transportes, à saúde e à educação, à falta de condições que os empresários ainda têm de enfrentar para fazer investimentos. Introduziu um velho ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que

 

fura” para enaltecer a persistência do CDS na apresentação de propostas, na área social, mas não só, que servem para melhorar a vida dos portugueses. “Muitas vezes são chumbadas ou recicladas e reapresentadas por outras forças políticas”, alertou. “Os votos não caem do céu, com trabalho conquistam-se!”, dando força à atual presidente e à sua equipa para continuar neste rumo de política positiva e construtiva.

 

“Ainda há incompreensão perante quem tem um discurso e uma prática política responsáveis, de verdade. É preciso perceber que ter mais dez euros na carteira não é suficiente para ter um país em condições. A direita sempre teve mais dificuldade em comunicar as suas ideias do que a esquerda”. Acrescentamos, e a nossa convidada concordará, que é muito mais fácil alinhar pela demagogia e facilitismo do que pelo rigor e responsabilidade, mas que prometer tudo a todos, a prazo, é muito pior para o país e para a sustentabilidade de políticas públicas que sirvam as atuais e as futuras gerações.

 

Por falar em gerações futuras e já como remate desta “Conversa do Caldas” diferente, mas não tão diferente assim, Isabel Santiago Henriques tem três filhos, um neto nascido há pouco mais de um mês, e reconhece que este “a desconcentra mas que é uma nova paixão”. O nascimento do Francisco e a perda do seu pai, no início deste mesmo ano, duas situações extremas e opostas que fazem parte da vida, são as duas imagens fortes que focámos ao concluirmos esta sessão de palavras e ideias com aquela que é já a fotógrafa oficial do CDS.