// OPINIÃO DIANA VALE _ // UM SNS FRÁGIL

Champalimaud Centre for the Unknown é o ponto de partida para uma reflexão mais profunda sobre a dicotomia existente entre um Instituto de ponta na investigação sobre o cancro, em Portugal, e o actual estado do Serviço Nacional de Saúde.

 

Sem pôr em causa a pertinência de Portugal liderar o que de melhor se faz no mundo para a medicina em geral, vem a propósito reflectir sobre o seu significado. Para quem, todos os dias, vai de comboio na linha de Cascais, a visualização desta placa de betão faz com que eu pense, o que se depreenderá desta enigmática expressão inglesa: “Champalimaud Centre for the Unknown.” Pensamento que me leva a questionar sobre o actual governo que apregoa a excelência do Serviço Nacional de Saúde, quando, ao mesmo tempo surgem, praticamente todos os dias, notícias alarmantes nesse sector.

 

O Partido Socialista, criador e impulsionador do SNS, é o mesmo que, curiosamente, põe em causa a sua sustentabilidade e, paradoxalmente, não pára de evocar que o tempo da austeridade “terminou”.

 

Ora, volvidos quase três anos de governação da “geringonça”, é mais do que evidente que deixou pura e simplesmente de honrar os seus compromissos em vários sectores chave do SNS que constituem uma importância capital para os cidadãos, especialmente, para o seu bem-estar.

 

Falo do sector da saúde mas poderia, também, falar no dos transportes públicos ou no da educação, que têm em comum uma gritante falta de investimento.

 

Ocupando o primeiro lugar nas preocupações dos portugueses, realço a saúde enquanto exemplo paradigmático de que o modelo de actuação escolhido pelo actual governo, não responde de modo adequado aos seus anseios.

 

Nesta linha de pensamento, o que nos deveria preocupar é a constatação que se começa a desenhar: uma medicina de classe, dos que têm e dos que não têm, no Serviço Nacional de Saúde.

 

 " Ocupando o primeiro lugar nas preocupações dos portugueses, realço a saúde enquanto exemplo paradigmático de que o modelo de actuação escolhido pelo actual governo, não responde de modo adequado aos seus anseios. "

Relembremos o caso que chocou o país com a falta de condições da ala pediátrica do Hospital de São João, no Porto. Relatos de crianças a fazerem tratamentos de quimioterapia nos corredores, ou até mesmo, dezenas de notícias sobre a lotação das macas nos hospitais e de pessoas internadas nos corredores e outras situações menos felizes que em nada nos orgulham.

 

Conhecendo, eu, bem a realidade dos hospitais, há um factor que não é da percepção comum. Há que ter a noção que o SNS também existe pela dedicação dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, técnicos e entre outros - e recursos humanos, que não se poupam a esforços para tratar, da melhor forma possível, os seus doentes. Mas essa dedicação não é suficiente: são necessários meios humanos e financeiros.

 

Falamos de médicos e enfermeiros exaustos, falta de efectivos, falta de técnicos, penúria de dispositivos médicos, condições indignas, infraestruturas inadequadas, constantes cativações, e uma dívida que ultrapassa os mil milhões de euros, e ainda, para acrescentar a esta degradação, assistimos, no início desta semana, à demissão em bloco das chefias de uma instituição de saúde tão importante como o Hospital de Gaia. Em recentes declarações, o Bastonário da Ordem dos Médicos, Dr. Miguel Guimarães, realça expressamente estes factos afirmando que “a situação no SNS não está fácil. É importante que quem lidera o nosso país comece a valorizar mais a saúde dos portugueses.

 

São apenas pequenos exemplos que ilustram as prioridades mal estabelecidas no SNS e que caracterizam a falta de empenho deste governo em resolver estas preocupações prementes abordando o assunto de forma acessória, já que está muito ocupado na sua função de arauto dos sucessos governativos.

 

E voltando àquela placa de betão, que vejo todos os dias de manhã, não posso deixar de pensar que este desinteresse por um sector de máxima importância revela, uma vez mais, que os aspectos sociais na governação socialista são como diz de modo trivial, “da boca para fora”, porque de gente elitista está a geringonça cheia para a qual o bom povo serve em primeiro lugar para chegar ao poder.

 

 

﷯ folhacds 18 SETEMBRO 2018