﷯ folhacds 4 OUTUBRO 2018

CONVERSAS DO CALDAS

Frederico Sapage Pereira

-

Frederico Sapage de Lemos Mira Pereira nasceu a 15 de setembro de 1987, em Cascais. É um dos coordenadores do Gabinete Autárquico do CDS Lisboa (Avenidas). Assessor do pelouro de Intervenção Social do Executivo da Junta de Freguesia das Avenidas Novas. Membro da Assembleia de Freguesia de Arroios. Conselheiro Nacional do CDS. Presidente da Mesa do Congresso Nacional da Juventude Popular.

Pouco antes da hora combinada já estava na nossa sede nacional. Começámos à conversa e a “Conversa do Caldas” propriamente dita foi um prolongar, ainda que mais focado e aprofundado, de uma troca de impressões informal e descontraída. Com este verão que teima em persistir, uma bebida fresca ajudou ao fluir das palavras, das histórias e das ideias.

 

Frederico Sapage, apelido de origem belga que é a nacionalidade da mãe, participa ativamente na vida política desde os seus 15 anos. Relembra uma etapa da sua adolescência, em que residia no Alentejo, concelho de Vendas Novas, onde tem ligações familiares, em que chegou a ser convidado para pertencer à Juventude Comunista Portuguesa. A tradição familiar apontava para um outro sentido, havendo mesmo uma oposição forte (ou até mais do que isso) a este tipo de ideologia política, um confronto extremado entre ambos os lados, algo característico de um período da nossa história recente como o PREC. De resto, foi o caminho seguido pelo Frederico. Disse prontamente não ao tal convite, “na altura não havia Juventude Popular no Alentejo e acabei por entrar para a Juventude Social Democrata”, completou. Nesta juventude partidária do PSD chegou a ser presidente concelhio, vice-presidente da Distrital de Évora, era tido como um promissor quadro social-democrata, no entanto, em 2006, com a vinda para Lisboa, para estudar na universidade, muita coisa mudou.

 

Diz-nos, “mudei a minha forma de pensar, senti-me mais próximo do CDS, tinha uma grande referência que era o Nuno Melo, aliás como a minha mãe”. Ainda entre os risos provocados por esta última evocação, pois não são exatamente coincidentes todos os motivos dessa admiração, esclarece que a falta de oferta política no Alentejo daquele tempo ditou o trajeto descrito.

No período da liderança do PSD por Manuela Ferreira Leite o corte foi efetivo e disse “vou fazer aquilo em que realmente acredito”. A desfiliação acabou por acontecer em 2008. Houve um “período de nojo”, revelou-nos, e depois sim em 2009, primeiro na Juventude Popular (JP) e passados poucos meses no CDS, aderiu formalmente. Concluiu com satisfação que “já passaram quase dez anos e não estou nada arrependido!”. Em 2010 pertenceu, como vogal, à Comissão Política Concelhia da JP de Lisboa. Em 2011, ano de Legislativas, candidatou-se à presidência da Concelhia da JP de Lisboa e convidou para a sua lista, como vice-presidente, precisamente Francisco Rodrigues dos Santos, atual presidente nacional da Jota. Recordou um almoço que teve nessa ocasião com o Francisco, na Reitoria da Universidade de Lisboa, no qual “longamente discutimos o futuro da Juventude Popular e que rumo seguir”. Juntaram-se a este grupo figuras que são hoje reconhecidos militantes e dirigentes da JP, o Francisco Laplaine Guimarães, o Francisco Tavares, elencou com satisfação o nosso convidado. Nas eleições para a estrutura de Lisboa não foi bem-sucedido e acabou por transferir a sua filiação para Cascais, o sítio onde nasceu. Aqui exerceu funções enquanto secretário-geral da concelhia. Entretanto o Francisco Rodrigues dos Santos vence as eleições em Lisboa e lança o repto ao Frederico Sapage para regressar à estrutura da capital. Esse desafio foi aceite e o nosso convidado desempenhou a tarefa da coordenação autárquica em ano, precisamente, de eleições autárquicas, em 2013. Nestas foi candidato na lista de coligação com o PSD à freguesia de Arroios.

Frederico

Sapage

Pereira

-

É um trabalho muito absorvente, sem horários, confesso que muitas vezes chego a casa e choro. De tristeza, por revolta, mas também de alegria

Entretanto, os desafios profissionais foram surgindo, e depois de ser gestor financeiro na Xerox e na Bayer, ruma a Barcelona, onde esteve mais de quatro anos, tendo regressado o ano passado. Referiu que a capital da Catalunha foi “muito importante na minha forma de viver, por vezes estamos numa redoma, com pouco mundo, fazemos análises de carácter, temos dogmas, sem vermos o que está para além da redoma. Nesse alargar de horizontes Barcelona foi muito importante para mim, aprendi a ser mais tolerante, foi de facto muito importante”. Reconheceu também que a distância auxiliou-o na ponderação, a ver o seu país, e a própria JP, “de uma forma mais fria, mais tranquila. Falava quase todos os dias com o Chicão [Francisco Rodrigues dos Santos] e as opiniões que lhe transmitia eram fruto desse distanciamento, dessa postura mais ponderada”. O estar fora do país, ainda que com a facilidade de comunicações que hoje existe e que lhe permitiram ir acompanhando a política nacional, na prática não estava ativo no exercício de funções político-partidárias, mas o interesse e o gosto sempre estiveram presentes.

 

“Quem está na diáspora muitas vezes sente uma coisa que é a saudade. A saudade apertou, ia fazer 30 anos, e queria regressar”. Depois dessa experiência, que como vimos foi muito mais do que profissional e também académica, constatou que “tenho muita facilidade em adaptar-me, é algo que é uma realidade, adaptar-me às circunstâncias”. Ainda antes do regresso a Portugal, trabalhou cerca de três meses na Eslováquia e é após essa experiência que confirmou a sua vontade de voltar. E assim acontece, diria o saudoso Carlos Pinto Coelho. Estávamos em abril de 2017.

 

Regressado, falou com o presidente da Concelhia de Lisboa do CDS, Diogo Moura, e manifestou-lhe a sua disponibilidade, agora que estava de volta, para participar mais ativamente. Em outubro tivemos, como é sabido, eleições autárquicas e após o seu regresso, o Francisco Rodrigues dos Santos foi, num misto entre desafio e incentivo, falando com o Frederico sobre a sua eventual vontade de encabeçar a lista à Freguesia de Arroios. O nosso convidado mostrou-se primeiro algo renitente, já estava há algum tempo fora, afastado da freguesia, mas “O Chicão foi metendo a semente”, disse, a ideia terá germinado, o próprio Diogo Moura abordou-o no mesmo sentido. Acabou por aceitar e foi o cabeça-de-lista à Freguesia de Arroios nas autárquicas em que Assunção cristas, presidente do partido, foi candidata à Câmara Municipal de Lisboa e alcançou um resultado histórico para o CDS na capital, com a passagem de um para quatro vereadores e o partido ter-se tornado no principal partido da oposição, entre outros indicadores muito positivos.

“Tenho um carinho muito especial por aquela freguesia, quando ainda era São Jorge de Arroios onde vivi, agora moro nos antigos Anjos, gosto muito da freguesia.”, diz com afeto o autarca do CDS.

 

Ainda antes de aprofundarmos as funções autárquicas, diversas de resto, do nosso convidado desta edição, perguntámos-lhe sobre a ação política da JP e que temas destacaria. Frederico, de imediato, destacou o crescimento da JP, em número de militantes, também em credibilidade externa, e na postura crescente do que chamou “fazer política para fora”, querendo com isto significar que o tempo despendido em questões internas terá sido severamente mitigado, o que terá resultado no crescimento apontado. “Somos uma família, há camaradagem,”, frisou. Em seguida traz para cima da mesa o combate à corrupção, os contributos e visibilidade que a JP conseguiu dar para as possíveis soluções deste problema. Referiu-se ainda à própria relação com o partido, que na sua ótica deverá ser cada vez mais de camaradagem, enquadrável na visão de uma relação, não tanto de pai e filho, mas mais de irmão mais velho com o irmão mais novo”. “Iria mais por aí”, aludiu Sapage.

 

Após a alusão ao contributo que a própria Juventude Popular deu nas últimas eleições autárquicas de Lisboa, em que encabeçou cinco listas candidatas a freguesias, sublinhando essa boa prestação, destacou ainda a maturidade que o partido revelou ao arriscar nessas soluções.

 

Em relação a outro passo do que poderá ser um sinal dessa maturidade, Frederico referiu que “não exigimos um lugar de deputado, simplesmente fazemos questão que os 22 mil militantes tenham um porta-voz no Parlamento. Neste momento a Juventude Popular é a única que não tem um representante parlamentar. Não é uma exigência, é uma ambição que temos. Todos ganham. A JP, mas também o CDS e acima de tudo a juventude portuguesa no geral”, tendo sob pano de fundo as eleições legislativas de 2019. E posto isto, regressámos então a Lisboa.

 

Em relação a Arroios, onde reside como já referimos, na rua do Regueirão dos Anjos, confessou-nos que acabou por filiar no CDS o seu novo senhorio, que é “um grande amigo”. Reconheceu que é uma vantagem residir na freguesia para acompanhar de uma forma mais próxima e sistemática todos os problemas daquela zona da cidade. Também aqui o resultado autárquico foi histórico, estando à beira de ser eleito o terceiro elemento para a Assembleia de Freguesia de Arroios. Aqui existe um clube anárquico, sociologicamente ainda persiste uma conotação muito à esquerda, realidade que enaltece ainda mais a conquista política efetuada.

Frederico

Sapage

Pereira

-

Quem está na diáspora muitas vezes sente uma coisa que é a saudade. A saudade apertou, ia fazer 30 anos, e queria regressar

Assumiu quando tomou posse, e reiterou na nossa conversa, que a postura que adotou foi a” de fazer política pela positiva, não é só apontar o que está mal mas também soluções para os problemas”, daí as relações com o Executivo da Junta não serem de confronto permanente mas de boa cooperação, apesar de serem oposição. “Das 22 recomendações que foram apresentadas pelo CDS neste ano de mandato, ou foram aprovadas por unanimidade ou por maioria”, sublinhou o autarca.

 

Completou ainda que “foram transversais a muitas áreas” e destacou aquela que serviu para defender o comércio local e os comerciantes prejudicados pelo estaleiro das obras do metro na estação de Arroios. Embora reconheça a necessidade das ditas obras de alargamento da estação para uma melhoria da mobilidade em Lisboa, os comerciantes da Praça do Chile sofreram uma quebra de vendas considerável e só viram a isenção de taxas/licenciamentos municipais concretizada graças à iniciativa do CDS, assim como a sinalética que indica que, apesar do estaleiro, os estabelecimentos comerciais continuavam em funcionamento. Esta recomendação do CDS foi aprovada na Assembleia de Freguesia por unanimidade.

 

Ressalvou que o trabalho autárquico na freguesia não é feito só na assembleia, dando expressão prática ao mote “falar menos, ouvir mais”, estando presentes assiduamente nas ruas da freguesia, a ouvir as pessoas, as suas preocupações, a informar a população das iniciativas do CDS. À conversa recorrente “então vocês não aparecem só em altura de eleições?!”, a exclamação/interrogação acabou por transformar-se numa afirmação ou constatação “vocês não aparecem só em altura de eleições”. “Tem de partir de nós, autarcas, eleitos, esta mudança de paradigma. Não aparecemos só de quatro em quatro anos a pedir votos mas estamos lá presentes durante todo o nosso mandato”, disse Sapage com convicção. “É um trabalho tão simples que nos enche de orgulho!”, rematou. Deixou ainda uma palavra particular para enaltecer o trabalho autárquico do número dois em Arroios, Vítor Teles, os seus conhecimentos jurídicos que se têm revelado muito consistentes e profícuos motivaram este agradecimento especial da parte do Frederico Sapage.

 

Muito haveria ainda a falar sobre o trabalho autárquico numa freguesia, das suas competências (e delegação das mesmas), os meios e o trabalho de oposição construtiva e responsável na mesma.

 

Do trabalho autárquico do Frederico Sapage faz ainda parte, desta feita de um ponto de vista mais profissional, a assessoria do pelouro de Intervenção Social da Junta de Freguesia das Avenidas Novas, cujo vogal responsável é Gonçalo Vassalo Moita, do CDS. “É um trabalho muito absorvente, sem horários, confesso que muitas vezes chego a casa e choro.

De tristeza, por revolta, mas também de alegria.”, confessou Frederico. Prosseguiu, “de revolta perante o peso do Estado central, a sua burocracia, que muitas vezes se revela pouco sensível aos problemas das pessoas e com pouca vontade em ajudar quem realmente precisa. Também de alegria quanto conseguimos arranjar trabalho para uma pessoa de 55 anos de idade, desempregada há seis anos, que já lhe faltava a esperança e conseguimos mudar isso”. Foi criada na freguesia uma rede de responsabilidade social e “colocámos o público a cooperar com o privado, a trabalhar em conjunto”. Tem tido resultados positivos no âmbito do emprego, também junto dos sem-abrigo. Uma dessas parcerias, com uma empresa que Frederico Sapage preferiu manter no anonimato, conseguiu, ao longo de dois anos, retirar das ruas catorze sem-abrigo, “têm uma casa, trabalho e acima de tudo dignidade”, afiançou. “Iremos fazer avançar este trabalho, com os malandros do privado que só pensam no lucro”, disse ironizando, “e tentarmos o mesmo objetivo mas para cem sem-abrigo”. Desabafou ainda que “aprendemos a não nos queixarmos, quando conhecemos estes verdadeiros heróis. Há sorrisos que não têm preço e é muito bom conseguirmos fazer a diferença”. Manifestou-se contra “o assistencialismo e a caridadezinha”, trata-se de “dar a cana para pescar e não dar o peixe”. “A política autárquica tem muito de pragmatismo”, mencionou ainda.

 

Houve aspetos que ficaram por conversar e saber sobre esta área, muito importante, fundamental mesmo, da intervenção social mas tivemos de avançar para a reta final.

 

Bem-humorado e com um humor peculiar, que atestamos com facilidade, falou-nos um pouco do seu percurso familiar. Perdeu o pai quando tinha doze anos de idade, foi criado entre a mãe e mais duas irmãs. “Aos doze anos virei o homem da casa”, disse com graça. “Ou ia por um caminho muito mau ou um muito bom. O mau era muito fácil e daria um excelente vilão, não duvido disso”, disse uma vez mais com muito sentido de humor. Felizmente optou “pelo lado bom da força”, esclareceu, não que existissem dúvidas.

 

A prática de rugby já faz parte do seu passado, aderiu ao TRX, um conjunto de elásticos que possibilita exercícios físicos diversos. O futebol não está ausente da sua vida, quer como praticante ocasional quer como adepto do Sporting, “algo que herdei do meu pai”. Define-se como um workaholic, restando-lhe pouco tempo, por exemplo, para leituras ou a fruição musical, mas ainda assim não deixa de o fazer e assume os seus gostos ecléticos nestes domínios. Deu-nos conhecimento do relacionamento que tem atualmente, com uma pessoa que sofre igualmente desse mal de ser workaholic, e utiliza invariavelmente o seu sentido do humor para afirmar “está a resultar muito bem, ela não me cobra a falta de tempo, pois também não tem tempo.”