﷯ folhacds 29 OUTUBRO 2018

CONVERSAS DO CALDAS

Miguel Capão Filipe

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Luís Miguel Capão Filipe nasceu a 10 de junho de 1961, em Aveiro. Médico. Pós-graduado em Gestão. Mestre em Medicina Desportiva. Foi deputado pelo CDS à Assembleia da República na VIII Legislatura (1999-2002). Foi presidente da Assembleia Municipal de Aveiro (2009-2013). Vogal da Comissão Política Nacional do CDS. Conselheiro Nacional. Presidente da Mesa dos Plenários Distrital e Concelhio de Aveiro do CDS. Vereador do CDS na Câmara Municipal de Aveiro.

É sempre particularmente agradável quando o convidado, ou a convidada, desta rúbrica da Folha CDS denominada “Conversas do Caldas” é um conversador nato. Já foram bastantes felizmente, atestando a riqueza e a diversidade de quadros, de militantes, de personalidades que são uma mais-valia para o partido e para as instituições e comunidades que servem. Capão Filipe é um desses casos, um conversador nato, mas muito mais do que isso.

 

Médico de formação, vocação e na prática também. Especializou-se em medicina interna e tem dedicado boa parte do seu tempo enquanto profissional de saúde a investigar na área da alergologia, já tendo de resto, obtido quatro prémios nacionais e um ibero-americano nesta área. Foi diretor clínico do Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro entre 2002 e 2005.

 

Fixou o início da sua vida política entre os anos de 1976 e 1978, no liceu Homem Cristo em Aveiro. Destes tempos conturbados destacou a derrota sobre os comunistas, então no poder na maioria das direções das associações de estudantes, e aquilo que apelidou ter sido “provavelmente a primeira coligação nacional entre a Democracia-Cristã e o PPD de então, uma coligação entre a Juventude Centrista (JC) e a Juventude Social Democrata (JSD)”, que conseguiu vencer a associação de estudantes, retirar a esquerda e iniciar uma viragem. Aveirense de gema (das gemas também, pois é confrade da Confraria dos Ovos Moles), interessado e conhecedor da nossa história, disse “Aveiro sempre esteve do lado da razão. Foi no século XIX nas lutas liberais e nas campanhas da Liberdade, com os congressos da oposição democrática ao Estado Novo, e depois do 25 de abril nas eleições democráticas para o poder local, e no 25 de novembro de 1975”.

Ainda em relação às associações de estudantes, contou-nos que quando havia reuniões gerais a nível nacional, as poucas filas de elementos da Juventude Centrista, conhecidos pelos samarras cinzentas (por sua vez os que envergavam uma samarra de cor castanha eram os do MRPP), eram apupadas pela maioria de esquerda aquando da sua entrada, pela sua presença, mas congratulou-se pela capacidade de resistência e pela participação na construção do país naquela altura.

 

Numa perspetiva histórica ainda, relembrou-nos as práticas em campanhas autárquicas e legislativas, em que a JC tinha a seu cargo desde a conceção dos comunicados, a sua reprodução gráfica, os cartazes, a respetiva afixação e até o fabrico da própria cola para o efeito, bem como garantir a segurança dessas operações em tempos muito conturbados, como já fizemos referência. Problemas esses que se colocavam mesmo naqueles municípios nos quais o CDS e a democracia-cristã já tinham conseguido alcançar uma maioria. Não se cansou de enaltecer justamente o papel que a JC teve na implantação do Portugal democrático, em particular nesse período de 1975/76.

 

Depois de mais estabilizado o novo regime político, nomeadamente a partir de 1980, uma série de elementos, incluindo o Miguel Capão Filipe, concentraram-se em fazer as suas licenciaturas e começarem os seus percursos profissionais. O nosso convidado, como mencionado no início, ligado à área da saúde e ao exercício da medicina, à investigação.

Miguel

Capão

Filipe

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Tudo aquilo que possamos fazer na vida nesta passagem terrestre para além do exercício da arte médica é extremamente interessante

No município de Aveiro, o CDS teve uma maioria absoluta durante vinte anos, era (e é) uma grande referência no distrito e “não era por acaso que Adelino Amaro da Costa chamava a Aveiro a capital da Democracia-Cristã”, relembrou Capão Filipe. Para além das três câmaras municipais presididas pelo CDS, há duas em coligação, o CDS partilha a gestão autárquica nomeadamente na capital de distrito, “onde à semelhança da AD nacional de 1979/80 é uma coligação entre o CDS, o PSD e o PPM”. Reportou-se à crise verificada após a perda do poder passados vinte anos, em que “voltámos a pegar no partido na sua pior fase, em que se arriscava a ser residual, houve um toque a rebate de uma geração, de várias figuras bem enraizadas na rede social aveirense, com repercussões em vários momentos, por exemplo nas autárquicas de 2001”, referindo-se Capão Filipe à sua candidatura à Câmara Municipal de Aveiro e inserindo-a numa lógica de tentativa de ressurgimento do CDS e dos valores da Democracia-Cristã.

 

Uma vez completado este mandato autárquico em 2021, “levaremos quase tanto tempo no exercício do poder local como os vinte anos do Dr. Girão Pereira”. Prosseguiu, “o CDS em Aveiro nos 40 anos de poder local democrático é um caso único, só não participou na gestão do município em oito anos, em que esteve no poder o Partido Socialista que deixou a autarquia em pré-falência”.

 

Miguel Capão Filipe, ao referir-se aos seus mandatos autárquicos ou aos do CDS de uma forma mais alargada, refere-se sempre a “nós” e ao quanto foi enriquecedor a experimentação de várias funções ao nível local, desde “deputados da oposição na Assembleia Municipal, presidente da Assembleia Municipal, vereadores da oposição, vereadores com mandato atribuído, numa primeira fase de quatro anos com o presidente Élio Maia, e agora também em coligação no quinto ano com o presidente o engenheiro Ribau Esteves”. Da mesma forma se reporta às funções partidárias variadas, na JC e no CDS, quer as executivas, quer outras, no que diz respeito à componente da diversidade de funções como algo enriquecedor, quer à menção generalizada do “nós”.

 

“Tudo aquilo que possamos fazer na vida nesta passagem terrestre para além do exercício da arte médica é extremamente interessante”, completando com uma diversidade de pelouros e de áreas em que já teve responsabilidades (mais de dez) tais como o “social, o trânsito e a mobilidade, o ambiente, a cultura, o turismo, os mercados e feiras, as concessões, o Teatro Aveirense, a Aveiro Expo”. “Todos são muito interessantes, desafiantes e exigem estudo da nossa parte”, em resposta a uma questão sobre as suas preferências e o desempenho na gestão autárquica.

Miguel Capão Filipe, “cagaréu”, nome atribuído aos nascidos na freguesia de Vera Cruz (agora Vera Cruz + Glória), com fortes tradições na pesca, analisou a evolução de Aveiro com um destaque para uma classe média sólida, “empreendedora, com mérito e com conquistas a pulso e não tanto a partir de benesses do Orçamento do Estado ou algo do género”. “Aveiro para além de um município, que é de referência a nível nacional, é cada vez mais uma cidade região, tendo a Europa que de adaptar a ela e não o oposto, com reflexos no meio universitário, uma universidade nova com cerca de 40 anos, em que o tubo de ensaio são as empresas e a própria região, no tecido empresarial, sobretudo de pequenas e médias empresas, com grupos líderes mundiais como a Bosh ou a Renault”. Ainda nesta análise, “Aveiro é uma cidade média portuguesa de referência pela sua qualidade de vida, pelo ambiente, mobilidade, pelas paisagens da ria e das praias, virada para o século XXI, nas tecnologias, na comunicação, na eletrónica, pela postura personalista, defensora do mercado mas com responsabilidade social. A matriz democrata-cristã é a aquela na qual o cidadão de Aveiro se revê e que faz parte da sua cultura de cidadania”.

 

Falámos ainda dos problemas causados pelo Estado central, que na opinião de Miguel Capão Filipe deveria assegurar as funções de soberania por um lado, e por outro dar espaço à descentralização, “ou mesmo à regionalização”. Concretizou que “a região deveria ter mais soberania e mais capacidade de autodeterminação em múltiplos setores. As cidades região que queiram trabalhar, que as deixem trabalhar e não as apertem em ciclos viciosos da administração central”, confirmando a sua posição fortemente descentralizadora e regionalista. Deu-nos um exemplo concreto, e sublinhou que poderia dar outros, ligado à saúde que conhece particularmente bem, “o centro hospitalar de Aveiro poderia e deveria justificar-se como um hospital polivalente, médico-cirúrgico diferenciado e só não o é pois temos uma região a sul e uma administração de verbas a partir do Ministério da Saúde que as esgota de forma casuística, chegando a Aveiro de forma já diminuída”. Não resistiu e avançou mesmo com outros exemplos, “não se percebe que a estrada Aveiro-Águeda não esteja realizada em via rápida, a importância que deveria ter a ligação ferroviária Aveiro-Salamanca em detrimento de outras, não nos podemos esquecer que de Coimbra para sul há uma cultura mediterrânica e para norte uma cultura atlântica”. Enalteceu também o trabalho em rede entre “o social, o privado, o público”, numa cooperação com resultados. Avançou com uma expressão que tem tanto de curioso quanto de interessante, ”Aveiro para além de contribuir para o Produto Interno Bruto, contribui muito para o Produto Interno de Felicidade!”.

Miguel

Capão

Filipe

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A matriz democrata-cristã é a aquela na qual o cidadão de Aveiro se revê e que faz parte da sua cultura de cidadania

Monárquico por “convicção e solução política”, antes disso por motivos determinados pela história. Abordou a “ilegitimidade da república, que nunca foi referendada”. Relembrou ainda que “mesmo numa constituição democrática ela tornou-se hermética, blindada e não permite o referendo sobre o regime”, completando que “os regimes com pouca convicção, nós à partida estranhamos”.

 

Apresentou-se como defensor da Causa Real, como muito mais mobilizadora, simbolizada pela Casa Real e pela bandeira, para além dos aspetos genéticos, emocionais, de memória, mais inconscientes no sentido de mais entranhados “e nós muitas vezes nem nos apercebemos ao certo”, para além disso, dados mais objetivos como as monarquias do norte da Europa e o seu grau de desenvolvimento.

 

Crítico em relação ao modelo republicano da escolha da chefia do Estado, pois “um rei é preparado desde pequeno para isso” e “representa de facto, sem ter origem em fações e em partidos, todos os portugueses”. “É um mito a faceta não democrática da monarquia, pois os reis em Portugal desde a Carta Constitucional estão habituados a perguntar ao povo se os querem”, esclareceu e acrescentou ainda que “em teoria na monarquia, com o passar de gerações todos poderão ascender a reis, nós já tivemos várias casas reinantes”.

 

Na sequência desta parte da conversa frisou que a experiência parlamentar que teve foi na Assembleia de Portugal ou no Parlamento Nacional, não lhe agradando, pelos motivos óbvios, a designação de Assembleia da República, regime republicano esse que inclusivamente, e também sem qualquer consulta popular, alterou o nome oficial do país, de Portugal para República Portuguesa.

 

Foi na VIII legislatura (1999-2002), no ano de 2001 e inícios de 2002 (as eleições legislativas antecipadas foram a 17 de março de 2002).

Também neste contexto utiliza o “nós”, relatando que “tivemos a oportunidade de ser coordenadores na Comissão de Saúde, de estar na Comissão de Acompanhamento ao Euro 2004, na de Juventude e Toxicodependência” e de partilhar trabalho parlamentar “com deputados que inclusivamente já partiram caso do Rosado Fernandes, mas também com Narana Coissoró e o líder parlamentar que curiosamente na altura era o Dr. Basílio Horta”. Por isso, fez menção, “foi uma experiência que nos tocou profundamente quer pelo exercício do cargo, quer por termos bebido e comungado com pessoas que estavam no Parlamento, numa altura em que o seu prestígio institucional ainda era grande, digamos assim…”.

 

Fez alusão ao sistema de rotatividade parlamentar praticado na altura na bancada do CDS, “não era desinteressante, pois funcionava como uma verdadeira escola de deputados nacionais, com aplicação no exercício político em geral”, adquirindo experiência e conhecimentos em diversas áreas da política.

 

É conhecida a sua ligação à vida associativa e desportiva, quer no Corpo Ativo dos Bombeiros Velhos de Aveiro, quer nas Festas de São Gonçalinho enquanto mordomo, ou enquanto cavaleiro da Confraria de São Gonçalo, quer ainda enquanto vice-presidente do Sport Club Beira-Mar (no ano em que o clube venceu a Taça de Portugal).

 

A mensagem final do nosso convidado é centrada no seguinte: “A passagem pela vida terrena é só uma. Enquanto o dom da saúde durar devemos ter uma vida cosmopolita. Ponto um, sermos os melhores na sociedade civil pelo nosso mérito. Ponto dois, entregarmo-nos com gosto à coisa pública, com base nos nossos valores e princípios, neste caso com orgulho, da Democracia-Cristã. Nesta vida preenchida em que esta é uma mesa e podemos provar de diferentes circunstâncias. Sermos úteis à nossa comunidade, seja através da vida política partidária, seja na coisa pública, enquanto complemento grande aos nossos êxitos na vida pessoal. Só saindo do conforto do sofá poderemos mudar o nosso próprio destino e o destino dos nossos filhos”.